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Alok relembra passado em Londres como barback

Alok relembra passado em Londres como barback
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/07/15/o-passado-de-alok-em-londres-eu-limpava-o-chao-do-bar-enquanto-o-dj-tocava.ghtml

A jornada de Alok em solo britânico

Quando Alok retornou a Londres em junho para inaugurar sua turnê Rave the World, o retorno ao Reino Unido despertou emoções complexas no produtor musical. Do mesmo piso onde seus admiradores hoje aguardavam a abertura da O2 Academy em Brixton, o artista executava tarefas simples em 2010, quando se deslocou para a capital britânica movido pela esperança de construir uma carreira na música eletrônica. A história de Alok DJ Londres barback marca um período transformador que moldou sua perspectiva de vida e arte.

Acompanhado pelo irmão Bhaskar, Alok iniciou suas experimentações musicais, conseguindo visibilidade considerável em plataformas de streaming especializadas em eletrônico. A promessa do mercado londrinense, reconhecido por sua abertura ao gênero, os motivou a realizar a mudança internacional. Contudo, a realidade se mostrou mais desafiadora que o esperado. Para sobreviver financeiramente, Alok aceitou um posto de barback, função equivalente a um assistente de bartender encarregado de atividades fundamentais no estabelecimento.

Reflexões sobre o período de dificuldades

Durante entrevista concedida à BBC News Brasil pouco antes de sua apresentação no famoso venue de Brixton, Alok não hesitou em compartilhar suas memórias sobre aquela fase delicada. "Vir para cá me dá até alguns gatilhos, sabe? Naquele momento, eu limpava o chão enquanto o DJ tocava, recolhia as bitucas de cigarro da rua enquanto as pessoas ficavam na fila," relembrou o produtor. Ele reconheceu que muitos compatriotas brasileiros chegam a Londres perseguindo aspirações artísticas semelhantes, porém nem todos conseguem persistir: "Muitos brasileiros vêm para cá com um sonho, acabam ralando muito, mas eu não dei conta e voltei para o Brasil."

Curiosamente, esse contexto profissional humilde não representava algo totalmente novo na trajetória familiar de Alok. Seus pais, Ekanta e Swarup, trilharam caminho equivalente décadas antes, tornando-se posteriormente referências seminais do psytrance, subgênero psicodélico da eletrônica, na cena brasileira. A genitora migrou para Orlando acompanhada pelos filhos para trabalhar como faxineira em um estabelecimento noturno, ambiente no qual descobriu a música psytrance e decidiu aprender a tocar.

Herança familiar e influências musicais

Seu pai visitou a família na Flórida e também se deixou conquistar pela sonoridade psytrance. Conjuntamente, adquiriram discos de vinil e equipamento técnico, iniciando um processo inusitado de distribuição dessa música no Brasil, apresentando-a para audiências reduzidas de aproximadamente trinta pessoas. "Era quase contracultura, porque a música eletrônica não tem matriz brasileira, como samba, pagode, sertanejo e MPB. Como vi esse processo deles, para mim foi natural seguir o meu também," explicou Alok.

Originário de Goiânia, o produtor passou praticamente toda sua infância e adolescência em movimento contínuo. Até aproximadamente os treze anos, viveu uma existência nômade que abrangeu cidades como Orlando, Amsterdã e Alto Paraíso. Uma das suas recordações mais vívidas refere-se ao período que residiu na Holanda, habitando um prédio anteriormente destinado a uso hospitalar e integrado a uma comunidade de orientação hippie. "Meus pais me tiraram da sociedade," comentou. Posteriormente, seu deslocamento para Brasília o confrontou com a vida convencional: "Quando fui inserido na sociedade, em Brasília, tive um choque de realidade e comecei a questionar meus próprios valores, como se aquilo estivesse completamente fora do sistema."

O retorno ao Brasil e a especialização em house music

Aproximadamente dois anos após acumular frustrações em sua tentativa de consolidação em Londres, Alok decidiu repatriar-se ao Brasil contemplando regressar aos estudos de Relações Internacionais. Inesperadamente, seus genitores se opuseram categoricamente a esse plano. "Meu pai disse para eu abandonar a faculdade e não desistir de ser DJ," recordou. A decisão paternal representava um risco considerável, já que a sustentação através da arte criava tensão em seu espírito, especialmente porque presenciava dificuldades financeiras significativas enfrentadas por seus pais.

Esse segundo fôlego conferiu ao produtor a oportunidade de reorientar sua identidade musical. Em lugar de prosseguir com o psytrance herdado geneticamente, voltou-se para a house music, vertente mais melódica, acessível e dançante da música eletrônica, diferenciando-se substancialmente das batidas aceleradas e hipnotizantes características do psytrance paterno. A mudança estratégica obteve sucesso significativo.

O lançamento que transformou a carreira

Trabalhando em produções ainda independentes, remixando desde Snoop Dogg até Barão Vermelho, Alok começou a conquistar públicos na casa dos milhões de escutadores. O momento decisivo ocorreu em 2016, quando lançou "Hear Me Now", colaboração que incluía o vocalista Zeeba e o produtor Bruno Martini. Essa música singularizou-se no histórico da indústria musical brasileira, acumulando aproximadamente mil milhões de reproduções apenas na plataforma Spotify.

Uma década após seu lançamento, "Hear Me Now" persiste como a faixa brasileira de maior audição no Spotify mundialmente. Seu impacto transcendeu a carreira pessoal de Alok, marcando um ponto de inflexão na visibilidade internacional da música eletrônica brasileira. O reconhecimento veio acompanhado de colaborações de destaque, incluindo trabalhos com artistas como Jennifer Lopez, que ampliaram sua presença nos circuitos musicais globais.

Questões emocionais e transformação espiritual

Apesar da prosperidade financeira conquistada, Alok enfrentou desafios significativos no plano emocional. O sucesso de "Hear Me Now" não garantiu equilíbrio psicológico duradouro, levando o produtor a experimentar depressão. Um vídeo documentando povos indígenas cantando despertou nele o impulso de buscar cura e renovação espiritual. Essa conexão o impulsionou a empreender uma jornada até a aldeia Yawanawá, localizada no Acre, distante aproximadamente 2,7 mil quilômetros de São Paulo, sua residência habitual.

Essa peregrinação envolveu deslocamentos variados por via aérea, terrestre e fluvial. Ao chegar à aldeia, Alok recebeu a bênção de um pajé e foi presenteado com um cocar que preserva com reverência em sua residência, respeitando o significado cultural genuíno do objeto. O encontro provocou transformação profunda em sua percepção: "Eu fazia música profissional, ocupava o top dez das paradas, e eles faziam música para curar."

Projeto ancestral e preservação cultural

Esse encontro germinou o projeto "O Futuro É Ancestral", constituído por um disco produzido colaborativamente com múltiplas etnias indígenas e uma turnê correspondente. Simultaneamente, Alok materializou uma iniciativa de biblioteca viva, gravando centenas de composições indígenas visando preservar essa herança cultural para gerações vindouras, conforme solicitado pelas próprias lideranças indígenas que conheceu.

Essas gravações assumiram importância vital, pois muitas comunidades indígenas transmitem conhecimento predominantemente através da oralidade e da música. Uma liderança indígena, ao ouvir uma gravação de canto tradicional, emocionou-se, revelando que cantava aquela melodia todas as noites à beira do rio para não perder a memória.

Engajamento político e ambiental

A imersão na cultura indígena ampliou a consciência política de Alok. O artista, já estabelecido nas rádios e televisão, realizou suas primeiras manifestações públicas de caráter político, deslocando-se a Brasília e subindo ao palanque para se opor ao marco temporal, conceito jurídico que restringe demarcações de terras indígenas. Os próprios indígenas o instigaram: "Os indígenas me disseram: 'Que legal que você está querendo ajudar a salvar nossa música, nossa cultura, mas tem também que salvar quem canta'".

Além disso, Alok estabeleceu parcerias com a Organização das Nações Unidas para iniciativas ambientais. O produtor posiciona-se contrário à polarização política da pauta ambiental: "Colocam todo mundo no mesmo bolo, como se a pauta ambiental fosse só de um lado. Isso é uma grande bobeira." Pessoalmente, implementou medidas de redução de impacto ambiental, descartando jato particular e compensando sua pegada de carbono através de organizações especializadas.

Inovação tecnológica e preocupações futuras

A turnê "Rave the World" representa uma resposta criativa às suas reflexões sobre o futuro das novas gerações. Apresentado dentro de um contêiner revestido de LEDs com projeções de mensagens inspiracionais e acompanhado por dançarinos, o novo show resgata sonoridades do início de sua carreira, incluindo influências psytrance herdadas.

Reconhecido pela integração de aparatos tecnológicos sofisticados, como canhões de laser visíveis em apresentações abertas, Alok dedica-se à reflexão crítica sobre a tecnologia. Utiliza inteligência artificial para testar vocais em suas produções antes de convidar cantores para gravações reais, solicitando ao programa que gere vozes inspiradas em determinados artistas ou com características vocais específicas.

Entretanto, o produtor exercita cautela: "A IA é uma ferramenta maravilhosa e vem para trazer conforto, mas a arte não é só para confortar. É para nos confrontar, fazer refletir." Defende vigorosamente que a inteligência artificial deve funcionar como instrumento complementar, jamais substituindo a participação humana fundamental na criação artística: "Temos que ter cuidado para não tirar o ser humano da equação. A IA pode ser uma ferramenta, mas não pode ocupar nosso lugar."

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