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Banco Master usou ferramentas digitais para fabricar documentos falsos, revela PF

Banco Master usou ferramentas digitais para fabricar documentos falsos, revela PF
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Polícia Federal expõe sistema de fabricação de documentos falsos no Banco Master

A Polícia Federal identificou um esquema sofisticado de fabricação de documentos falsos no Banco Master, onde funcionários utilizavam ferramentas comuns de escritório e programação para criar uma verdadeira linha de montagem digital. O esquema de documentos falsos funcionava em etapas organizadas, transformando dados reais de clientes em registros fictícios de crédito consignado.

A operação envolvia a extração de dados internos, produção em massa de documentos utilizando o Microsoft Office, manipulação de assinaturas digitais e remoção estratégica de informações que poderiam revelar a origem dos arquivos. Tudo isso visava sustentar a existência de uma carteira de R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito, atribuída à empresa de fachada Tirreno Consultoria, que seriam repassadas ao Banco de Brasília (BRB).

A estrutura da 'linha de montagem' de fraudes

Segundo relatório técnico-pericial da Polícia Federal, baseado em uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master, o arquivo denominado "Investigações internas – Banco Master" continha 30 slides documentando atividades realizadas entre junho e outubro de 2025 para a produção de documentação relacionada à cessão de créditos consignados.

O material demonstra que a operação combinava ferramentas corriqueiras de escritório com programação avançada e edição de documentos. O objetivo específico era transformar dados de operações reais e antigas em documentação que desse aparência de legitimidade a uma carteira de créditos fictícia atribuída à Tirreno.

Extração de dados reais como matéria-prima

O primeiro passo do esquema envolvia obter dados de clientes que haviam realizado operações legítimas. Funcionários recorreram a informações armazenadas nos sistemas internos do banco, inclusive relacionadas ao CredCesta, um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, o levantamento de CPFs através do Microsoft Teams. Vinicius compilou os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv e no dia seguinte executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno.

O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx, que foi enviada por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57. A planilha reunia informações cadastrais dos clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Esses dados serviram como matéria-prima para a montagem subsequente dos documentos falsos.

Produção automatizada de procurações em lote

Com os dados compilados, uma das etapas críticas era a produção de procurações. Para isso, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word, ferramenta que permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada registro.

Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, armazenada na pasta de trabalho Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras. O procedimento possibilitou gerar 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025, demonstrando como a tecnologia foi empregada para reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas de pessoas.

Manipulação digital e ocultação de vestígios

Programação em C# para separar páginas de assinatura

A produção dos documentos envolveu também colaboração da área de tecnologia do Banco Master. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de aplicações em C# registradas no repositório GitHub da instituição.

Uma das funções criadas tinha finalidade específica: extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente a página de assinatura dos documentos originais. A perícia identificou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos de documentos falsos.

Apagamento de datas e informações reveladoras

Quando os documentos carregavam informações que poderiam revelar sua origem ou a verdadeira data de formalização, funcionários atuavam para apagá-las ou alterá-las. Em um dos casos analisados pela perícia, um Termo de Consentimento que trazia originalmente a data de 24 de fevereiro de 2023 teve esse registro removido em julho de 2025.

Em conversa no Teams de 20 de junho, Allan da Silva Machado pediu explicitamente a Moacir Lourenço da Silva Junior: "precisamos excluir a data". A perícia identificou um exemplo concreto no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foi apagado visualmente.

Discrepâncias nas assinaturas digitais

Outra evidência forte da manipulação surgiu nas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust em 20 de junho, quando Fabrizio organizou uma força-tarefa para assinar os documentos. Foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.

As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader usando o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. Justamente nessa etapa, a perícia encontrou uma das evidências mais fortes da manipulação. Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma data anterior, por exemplo, 21 de janeiro de 2025. Já o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que aquele arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.

Alteração de comprovantes bancários e preocupação com auditoria

Tentativa de remover rastros em transferências

A tentativa de apagar rastros chegou também aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. Os documentos apresentavam informações que vinculavam as operações ao histórico original.

Allan queria retirar três elementos específicos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações que apareciam estava a expressão "LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX". A conversa mostra que a dificuldade era fazer isso em escala, pois Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento, mas que seria impossível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes.

Comunicação com a auditoria da Deloitte

As mensagens reunidas pela investigação mostram que a preocupação não era apenas produzir os documentos, mas explicar as inconsistências caso fossem questionadas. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. A resposta de Alberto foi direta: "esse tem que falar que foi erro operacional na selecao".

Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Fabrizio afirmou que a base já havia sido enviada anteriormente, mas apresentava um erro que precisaria ser corrigido.

Repasse de documentos falsificados à cúpula

A investigação identificou também o repasse de amostras da documentação falsificada. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um "kit dos 300 com assinatura digital". Alberto respondeu que providenciaria. Minutos depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos.

Isso demonstra que a documentação produzida na operação não ficava restrita aos funcionários responsáveis por sua montagem, alcançando os níveis mais altos da administração da instituição.

O esquema triangular: Tirreno, Master e BRB

A relação entre a Tirreno, o Banco Master e o Banco de Brasília funcionou como um esquema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuou como uma empresa de fachada, criada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master que, por sua vez, utilizou essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB.

Mesmo após a retirada de datas e alteração de documentos, a própria estrutura digital deixava vestígios. O choque entre as datas escritas nas CCBs e os registros das assinaturas digitais é um dos exemplos mais contundentes. A perícia conseguiu identificar que documentos apresentados com datas anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente, comprovando o caráter fraudulento da operação.

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