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Data centers no Brasil: oportunidade ou risco em expansão?

Data centers no Brasil: oportunidade ou risco em expansão?
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Data Centers no Brasil: Uma Aposta Estratégica em Contraste com os EUA

Enquanto data centers Brasil ganham espaço nas agendas dos principais candidatos à Presidência, países como os Estados Unidos enfrentam resistência crescente da população contra a expansão dessas instalações. A discrepância reflete diferenças fundamentais entre os mercados e modelos energéticos dos dois países, criando cenários distintos para o setor de computação e processamento de dados.

Os principais concorrentes à cadeira presidencial apresentam propostas variadas para atrair investimentos em data centers, incluindo incentivos fiscais, fabricação local de componentes e desenvolvimento de inteligência artificial brasileira. Essa convergência entre candidatos não é aleatória: representa uma tentativa de posicionar o Brasil como centro estratégico para processamento global de dados e aplicações de IA.

O Cenário Americano: Rejeição Cidadã e Pressão Ambiental

Nos Estados Unidos, a rejeição pública aos data centers atinge níveis expressivos. Uma pesquisa Reuters/Ipsos revelou que 64% da população americana discorda da ideia de expandir rapidamente essas instalações, enquanto 57% são contrários à construção em seus próprios bairros. Manifestações acontecem em cidades como Frederick, Maryland, onde moradores protestam contra os impactos ambientais e no consumo de energia.

Apesar dessa resistência significativa, o presidente Donald Trump tem apoiado o avanço do setor. Em encontro recente com líderes de gigantes tecnológicas como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Sundar Pichai, Trump afirmou que os data centers serão "muito populares" no país e prometeu benefícios financeiros e comunitários com essas instalações.

Brasil: Posição Estratégica e Déficit de Capacidade Computacional

O Brasil ocupa posição bastante diferente no mercado global. Enquanto os EUA contam com mais de 4.700 data centers e lideram o segmento internacional, o Brasil possui apenas 218 complexos, ocupando o 12º lugar no ranking mundial. Essa defasagem resulta em necessidade significativa de armazenar e processar dados no exterior.

Os números evidenciam o desafio estrutural brasileiro: o país terminou 2024 com déficit de US$ 8 bilhões na balança comercial de Serviços de Computação e Informação, conforme dados da Brasscom, associação de empresas brasileiras de tecnologia. Esse cenário motivar candidatos a priorizar a atração de data centers como fator estratégico para desenvolvimento econômico e tecnológico.

Matriz Energética: Vantagem Decisiva do Brasil

A principal vantagem competitiva brasileira reside em sua matriz energética. Enquanto os EUA dependem principalmente de combustíveis fósseis, como petróleo e gás natural, a eletricidade brasileira é gerada em grande escala por fontes renováveis, especialmente hidrelétricas, além de potencial crescente em energia eólica e solar.

Essa diferença fundamental altera significativamente o cálculo de sustentabilidade. Daniel Cordeiro, professor na Universidade de São Paulo e especialista em computação sustentável, destaca que o Brasil precisar aumentar capacidade computacional, mas deve aprender com os problemas americanos: "Ainda não chegamos na quantidade de data centers que esses outros países já têm. Temos que olhar para os problemas que estão acontecendo nos outros países e nos precaver para que o mesmo não aconteça aqui".

Redata: Regime Especial de Tributação e Exigências Socioambientais

O presidente Luiz Inácio Lula sancionou em setembro o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), que representa abordagem diferenciada em relação aos incentivos tradicionais. O regime zera impostos de importação de equipamentos utilizados em data centers, mas estabelece contrapartidas socioambientais claras.

As empresas que buscam aproveitar os benefícios do Redata devem cumprir requisitos rigorosos: usar apenas energia renovável ou de baixo carbono, gastar no máximo 50 mililitros de água por quilowatt-hora, destinar 10% da capacidade para o mercado brasileiro e investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa local. Marina Garrote, diretora de operações do Reglab, acredita que o Redata pode ajudar o Brasil a superar desafios enfrentados americanos, pois com matriz energética baseada em fontes limpas, a expansão torna o custo social diferente.

Propostas dos Candidatos Presidenciais

As propostas para atrair data centers Brasil variam conforme a visão de cada candidato. Lula defende fomentar empresas brasileiras de inteligência artificial e criar versões nacionais de modelos de linguagem, como ChatGPT e Gemini. Flávio Bolsonaro propõe reduzir impostos sobre energia para data centers e conectar a demanda dessas instalações à exploração nacional de minerais críticos usados na fabricação de chips de IA.

Ronaldo Caiado estabelece data centers como parte integral de cadeia de inovação, conectando-os ao desenvolvimento de semicondutores e modelos de linguagem nacionais. Renan Santos propõe transformar o Brasil no maior exportador de processamento de dados para modelos de IA, criando zonas com regime tributário específico. Romeu Zema defende a criação de ambiente regulatório estável para garantir segurança jurídica às empresas do setor.

Desafios Futuros e Questões em Aberto

Thais Ortega, coordenadora de pesquisa da consultoria Reglab, observa que embora todos os principais candidatos convergem para atrair data centers, a questão transformou-se: não se debate mais "se" devem ser instalados, mas "quais" serão as regras para sua operação. Esse consenso político reflete reconhecimento de importância estratégica do setor.

Entretanto, questões importantes permanecem abertas. Algumas partes do Redata ainda serão regulamentadas, especialmente a definição de "energia de baixo carbono", que pode potencialmente permitir o uso de gás natural. Daniel Cordeiro adverte que as políticas para atrair data centers começarão a produzir efeitos em alguns anos, mas é imperativo atentar-se a possíveis problemas desde agora para evitar criar infraestrutura problemática no futuro.

Perspectivas de Desenvolvimento Tecnológico

A ampla rede de cabos submarinos de internet que conectam o Brasil a outros países, combinada com mercado interno robusto, posiciona o país de forma estratégica. Marina Garrote ressalta que o Brasil possui vários pontos positivos para atrair data centers, mas destaca que é necessária mais pesquisa para estimar adequadamente os benefícios e prejuízos para população e economia.

O desenvolvimento de data centers Brasil representa oportunidade significativa para reduzir déficit em serviços computacionais, impulsionar desenvolvimento de inteligência artificial local e posicionar o país como polo tecnológico regional. Contudo, é fundamental implementar regulamentações que garantam sustentabilidade ambiental e benefícios sociais efetivos para as comunidades onde essas instalações serão construídas.

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