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Documentário resgata pagode 90 como transformador social

Documentário resgata pagode 90 como transformador social
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/07/18/pagode-dos-anos-90-e-redimensionado-em-serie-documental-como-movimento-transformador-do-samba-e-da-sociedade.ghtml

Uma nova perspectiva sobre o pagode da década de 1990

O documentário 'Anos 90 – A explosão do pagode' promove uma releitura profunda do movimento que marcou gerações. A série, dirigida por Emílio Domingos e Rafael Boucinha com roteiro de Raul Perez, já está disponível na íntegra no Globoplay após exibição pela TV Globo. A obra reúne depoimentos de artistas que vivenciaram o auge do pagode e refletem sobre seu legado como fenômeno transformador não apenas da música, mas da própria estrutura social brasileira.

O pagode anos 90 transcendeu o universo musical, representando muito mais que sucessos comerciais e hits radiofônicos. Segundo Thiaguinho, vocalista do Exaltasamba, o movimento funcionou como catalisador de identidade para jovens negros periféricos: "Quando o pagode começou a fazer muito sucesso nos anos 90, isso me ajudou a me entender como preto, a ter mais orgulho de ser preto. O pagode dos anos 90 vai muito além da música. É um movimento transformador da sociedade".

Os protagonistas e suas histórias de ascensão

Netinho de Paula destaca-se entre os entrevistados pela capacidade de sintetizar momentos históricos com perspectiva crítica. Revelado pelo Negritude Junior no programa "Domingão do Faustão", o cantor reflete sobre sua saída do grupo para carreira solo. Sua fala resume a essência do movimento: "O pagode anos 90 é a juventude dizendo: 'agora vamos fazer o samba do nosso jeito'". A série permite que artistas como Netinho revisitem sua trajetória com honestidade, reconhecendo tanto triunfos quanto desafios enfrentados na carreira.

Chrigor, que deixou o Exaltasamba em 2002 após ser substituído por Thiaguinho, relata seu processo de superação com franqueza: "Eu era um cara cheio de sucesso (de repente) sem sucesso algum. Para a minha vida, foi bom porque eu aprendi a viver, mas sofri. O sucesso não tem compromisso com ninguém". Estes depoimentos autênticos constituem a principal matéria-prima da série, entrelaçados com imagens de arquivo e apresentações que revisitam o repertório de grupos icônicos.

Transformações sociais e mobilidade econômica

Um dos maiores méritos do documentário é colocar em destaque as implicações sociais da explosão do pagode. Os grupos eram compostos majoritariamente por jovens negros egressos das periferias, especialmente de São Paulo, epicentro do movimento. Apenas o Só pra Contrariar originou-se em Uberlândia, Minas Gerais. A ascensão do pagode anos 90 possibilitou mobilidade social sem precedentes para estes artistas e suas famílias.

A série examina como a riqueza e o sucesso midiático transformaram a vida destes protagonistas, trazendo consigo ostentação, rivalidades e, em alguns casos, uma existência vivida em piloto automático, conforme recorda Wilson Prateado, produtor fundamental do movimento. Contudo, o documentário não se fixa apenas nos aspectos negativos, mas celebra um período que genuinamente transformou trajetórias e comunidades inteiras.

Questões de gênero e representatividade

A documentário aborda a supremacia masculina que caracterizava o movimento em seus primórdios. Eliana de Lima era praticamente a única voz feminina que quebrava essa hegemonia nos anos 1990. Décadas depois, Ludmilla arrasta multidões para os shows do projeto "Numanice", representando a evolução do gênero e a incorporação de perspectivas femininas no pagode. Sua participação na série contribui significativamente para compreender as transformações do movimento ao longo de trinta e seis anos, tomando como ponto de partida o sucesso pioneiro do Raça Negra em 1990.

As raízes e influências musicais

O documentário estabelece conexões reveladoras entre o pagode anos 90 e suas influências musicais. O Fundo de Quintal, grupo revolucionário que transformou o modo de tocar samba na segunda metade dos anos 1970, paradoxalmente serve como principal referência para as estrelas do pagode 90, apesar de ter perdido impulso comercial justamente com a explosão do novo movimento. Esta dialética entre tradição e inovação marca a essência do documentário.

A ligação do pagode 90 com o movimento black dos bailes paulistanos constitui um ponto luminoso na narrativa. A força de artistas como Belo, com seu carisma ressaltado por vários entrevistados, e Thiaguinho, cujo projeto "Tardezinha" evoluiu de rodas de samba para arenas e estádios, é documentada ao longo dos episódios com propriedade.

O legado e o ressurgimento do movimento

O documentário, dividido em três episódios, traça a trajetória do pagode desde suas origens no "Da quebrada pro mundo", passando pelo "O estouro" - onde a ascensão social dos protagonistas fica evidente - até "O show tem que continuar", capítulo final que convida à reflexão sobre o impacto duradouro do movimento.

O sucesso midiático do pagode arrefeceu ao longo dos anos, mas ressurgiu com força nos anos 2020, quando o movimento ganhou status de cult. Turnês milionárias, como o reencontro de Belo com o Soweto em 2024, demonstram a permanência desta estética na cultura brasileira contemporânea. A série tem o mérito de cativar o espectador com reflexões sobre um período que marcou época na história do samba e da sociedade, evitando clichês nostálgicos para focar na realidade dos fatos.

Por que assistir à série

"Anos 90 – A explosão do pagode" é imprescindível para quem deseja compreender a história recente da música brasileira e suas repercussões sociais. A série alimenta-se da nostalgia de um "tempo bom", conforme qualifica Netinho, mas mantém foco na realidade dos acontecimentos, sem romantizar excessivamente o período. Os depoimentos sinceros, a qualidade das imagens de arquivo e a estrutura narrativa criada por Raul Perez garantem uma experiência envolvente do começo ao fim, desde o "didididiê" do Raça Negra até as reflexões contemporâneas sobre o legado do movimento.

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