Habeas Corpus: Estiano e Gabrielly revelam falhas do sistema jurídico

As atrizes mergulham nas contradições da Justiça brasileira
A série Habeas Corpus, primeiro drama jurídico brasileiro da Netflix, coloca em evidência as falhas do sistema jurídico através de duas perspectivas distintas. Marjorie Estiano interpreta a professora e advogada criminalista Inez Franco, enquanto Any Gabrielly dá vida a Marina, uma brilhante aluna bolsista envolvida em um grupo de revisão criminal. Para ambas as atrizes, participar da produção significou muito mais que representar personagens: foi uma jornada de compreensão profunda sobre como as deficiências do sistema afetam vidas reais.
Preparação intensiva revelou a crueldade do sistema
A preparação para Habeas Corpus incluiu visitas a fóruns, conversas com profissionais do Direito e pesquisa detalhada sobre casos reais. Any Gabrielly descreveu o impacto dessa experiência de forma intensa: "Ver isso na sua frente muda tudo. É muito diferente você estar na sua casa e falar que o sistema é uma bosta e você ver o sistema sendo uma bosta. Foi um tapão na cara". A atriz iniciou o processo acreditando conhecer as limitações da Justiça brasileira, mas o contato direto com processos e histórias de pessoas prejudicadas por condenações injustas transformou completamente sua perspectiva.
Segundo Any, as falhas identificadas no sistema judicial são "muito desumanas e cruéis" e possuem "capacidade de destruir uma vida inteira". Esta constatação tornou-se central para sua interpretação de Marina e para sua compreensão do papel da série em provocar reflexão coletiva.
O impacto da vulnerabilidade social nas decisões judiciais
Para Marjorie Estiano, o aprendizado mais significativo durante a preparação foi entender a profunda relação entre Justiça e vulnerabilidade. A atriz enfatizou a importância de um Estado eficaz na garantia da cidadania e demonstrou preocupação com o abandono institucional: "A dimensão do impacto da justiça dentro de uma população vulnerável fica imensamente aparente. Se destaca imensamente a importância de um Estado eficaz em assegurar a cidadania e dimensão do impacto quando ele falha. O abandono do Estado fica muito gritante".
Esta perspectiva moldou a interpretação de Estiano como Inez Franco, uma personagem que inicialmente estava mais preocupada em se beneficiar da lei do que em defender princípios fundamentais do Direito. Ao longo da narrativa, o arco de desenvolvimento de Inez reflete uma ressignificação pessoal e profissional diante das injustiças do sistema.
Habeas corpus e revisão criminal: instrumentos jurídicos em foco
Apesar do título, Habeas Corpus utiliza como instrumento jurídico central a revisão criminal. O habeas corpus, previsto na Constituição Federal, protege contra restrições ilegais ao direito de locomoção. Já a revisão criminal permite questionar condenações definitivas quando surgem novas provas de inocência ou outras situações previstas em lei. Esta ferramenta orienta o trabalho de Inez e seus alunos na série.
A trama acompanha o caso de Jonathan, interpretado por Hipólyto, um jovem de 19 anos condenado injustamente a 47 anos de prisão por homicídio. A narrativa se constrói através da busca por elementos que possam colocar a sentença em dúvida, refletindo processos reais da ONG Innocence Project Brasil, que revisa condenações injustas.
Questionando certezas sobre Justiça e punição
Any Gabrielly expressa esperança de que Habeas Corpus provoque reflexão crítica no público: "Espero que as pessoas se sintam cutucadas por todos os conceitos que elas têm sobre a justiça. A gente cutuca todas as áreas. A série faz você pensar por que que você acha isso, por que você acha aquilo". Essa provocação é central à proposta da produção, que não oferece respostas fáceis, mas convida à análise das estruturas que sustentam o sistema jurídico.
A necessidade de autorreflexão institucional
Para Marjorie Estiano, a série pode transformar a relação do público com a instituição judicial: "A expectativa é mostrar a importância desse órgão, da função da justiça dentro de uma sociedade. É um elemento que precisa se rever o tempo inteiro, se fiscalizar, se corrigir, se atualizar. Acho que a série acaba oferecendo essa provocação de você pegar a justiça no seu colo e tentar entender um pouco, se implicar um pouco mais nas soluções também".
O personagem de Marjorie exemplifica esta transformação necessária. Inez começou a história servindo seus próprios interesses, mas através de seus erros, passa a se questionar e ressignificar seu papel no sistema. Este arco reflete a própria jornada que a série propõe ao espectador.
Aprendizado ao lado de veteranos do cinema
Beyond preparação jurídica, Any Gabrielly também destacou a experiência de trabalhar com atores consagrados. A atriz descreveu a experiência como educativa e desafiadora: "É foda. É foda. É muito difícil achar outras palavras para descrever a experiência". O contato com profissionais como Marisa Orth, Vladimir Brichta e Marjorie Estiano gerou tanto nervosismo quanto aprendizado significativo.
Um momento memorável ocorreu durante gravações de cenas de tribunal no período de Carnaval, com sequências complexas de julgamentos e textos longos. Any recordou: "Era tão lindo ver esses veteranos trabalhando. Ver Marisa Orth e Marjorie num grande embate ali... Eu fiquei muda e absorvendo o que era aquilo. Ver o Vladimir Brichta fazendo as coisas, tudo era uma escola. Queria poder engarrafar tudo aquilo e levar no bolso para o resto da vida".
São Paulo como palco da narrativa jurídica
A série possui forte presença geográfica em São Paulo. Gravações foram realizadas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, proporcionando autenticidade às cenas acadêmicas e jurídicas. A Sala São Paulo e o Instituto de Biologia também serviram como locações significativas. Uma residência projetada pelo renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, situada no Butantã, foi transformada na casa de Murilo (Vladimir Brichta) e Bianca (Renata Gaspar), esposa do advogado personagem.
Uma provocação necessária sobre Justiça
Habeas Corpus representa mais que entretenimento: é uma ferramenta de reflexão coletiva sobre as falhas do sistema jurídico brasileiro. Através das perspectivas de Marjorie Estiano e Any Gabrielly, a série conecta ficção com realidades documentadas, desafiando espectadores a reconsiderarem suas convicções sobre Justiça, culpa e reparação. O trabalho conjunto das atrizes e da produção oferece uma provocação necessária para que o público compreenda melhor as estruturas que sustentam ou falham o sistema de Justiça nacional.




