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Maria Rita retoma grandeza vocal em 'Redescobrir vol. 2'

Maria Rita retoma grandeza vocal em 'Redescobrir vol. 2'
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Maria Rita recupera sua estatura de grande cantora

O espetáculo Maria Rita Redescobrir vol. 2 marca o retorno triunfal da artista ao patamar de destaque que havia conquistado em seus primeiros anos de carreira. Após período em que a cantora realizou trabalhos considerados aquém de seu potencial vocal, a nova versão do tributo à sua mãe, Elis Regina, devolve à cena a intérprete que o público brasileiro desejava reencontrar.

Apresentado na noite de 10 de outubro de 2026 na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro, o show Maria Rita Redescobrir vol. 2 superou significativamente o espetáculo original de 2012, consolidando a evolução artística da cantora. Durante o discurso proferido no palco, Maria Rita ressaltou que o novo projeto a coloca novamente no colo da mãe, metáfora que simboliza a conexão profunda com o legado de Elis.

Um mergulho profundo no repertório de Elis Regina

Diferentemente de uma abordagem superficial, Maria Rita demonstrou conhecimento aprofundado sobre as composições e interpretações de Elis ao incluir canções menos conhecidas no roteiro de Maria Rita Redescobrir vol. 2. Peças como "Um por todos" e "Jardins da infância", ambas de João Bosco e Aldir Blanc de 1975, revelam a dedicação da artista em explorar camadas mais profundas do acervo da mãe.

A abertura do espetáculo com "Outro cais", composição de Marilton Borges e Duca Leal de 1980, gravada por Elis fora de sua discografia oficial, sinalizou desde o início a qualidade do trabalho realizado. Essa escolha demonstrou que Maria Rita saiu da superficialidade ao mergulhar no vasto repertório de Elis, sem necessidade de apelos comerciais óbvios.

Arranjos renovados elevam o espetáculo

A direção musical e os arranjos assinados pelo tecladista Rodrigo Tavares constituem um dos principais diferenciais de Maria Rita Redescobrir vol. 2 em relação à versão anterior. Enquanto o show de 2012 mantinha maior reverência aos arranjos originais, a nova produção apresenta frescor e renovação nas orquestrações.

Os sopros do trombone de Samuca e do trompete de Vander Nascimento transformaram a atmosfera de várias composições. Em músicas como "Essa mulher" de Joyce Moreno e Ana Terra, e em sambas como "Agora tá" de Tunai e Sérgio Natureza, a presença dos metais intensificou o caráter rítmico e a energia do espetáculo. Maria Rita exibiu notável domínio do andamento e segurança na execução desses números de complexidade rítmica elevada.

Destaque para interpretações memoráveis

"As aparências enganam", composição de Tunai e Sérgio Natureza, destacou-se como grande momento do show em Maria Rita Redescobrir vol. 2. Nessa interpretação, a cantora alcançou dimensão emocional e interpretativa comparável à própria Elis Regina, demonstrando que não funciona como cover genérico ou cópia da mãe, mas como intérprete singular com voz e intenções próprias.

A canção "Corcovado", composição clássica de Antonio Carlos Jobim, ganhou arranjo especial que incluiu o violão afetivo do filho de Maria Rita, Antonio Baldini, neto que Elis Regina não chegou a conhecer. Esse detalhe pessoal adicionou camadas emocionais profundas ao espetáculo, conectando gerações através da música.

O improviso em "Romaria", composição de Renato Teixeira de 1977, apresentado como bis do show em formato a capella, enfatizou o sentido político do espetáculo. Nesse momento, a projeção das lágrimas do filho Antonio Baldini, integrante da banda, emocionou profundamente o público presente.

Formação instrumental de excelência

A big band que acompanha Maria Rita Redescobrir vol. 2 executa com precisão os arranjos renovadores propostos por Rodrigo Tavares. Além do tecladista e diretor musical, a formação inclui Carlos Júnior no baixo, Jorge Quinho na percussão, Pedrinho da Serrinha também em percussão, Gabriel Quinto na guitarra e violão de sete cordas.

O trabalho ensemble demonstrou competência em navegar pelas diferentes abordagens musicais do repertório, desde sambas de ritmo intrincado até canções de atmosfera intimista. A execução equilibrada permitiu que o foco permanecesse sempre na voz de Maria Rita, instrumento central da narrativa musical do espetáculo.

Estreia carioca após sete meses

A apresentação no Vivo Rio constituiu a estreia carioca de Maria Rita Redescobrir vol. 2, sete meses após o lançamento da turnê nacional em 13 de março de 2026, em Porto Alegre, terra natal de Elis Regina. Comparado ao roteiro de Porto Alegre, o show carioca permaneceu fiel às principais composições, como "Carinhoso" de Pixinguinha e João de Barro, "Como nossos pais" de Belchior, e "Ladeira da Preguiça" de Gilberto Gil.

Algumas variações ocorreram em relação à apresentação gaúcha, com perdas de dois sambas, "O mestre-sala dos mares" e "Eu hein, Rosa!", ambos de João Bosco e Aldir Blanc, porém mantendo a estrutura essencial que consolida Maria Rita Redescobrir vol. 2 como trabalho coerente e bem pensado.

Cenografia e recursos visuais

O cenário concebido por Batman Zavareze complementa a experiência sonora do espetáculo, com imagens projetadas que expandem o sentido emocional e temático das composições. No entanto, conforme observado durante a apresentação, a grandeza do canto de Maria Rita transcende qualquer elemento visual, minimizando a importância da cenografia diante da potência interpretativa da artista.

O legado ressignificado de Elis Regina

Quase 50 anos após ter parido Maria Rita em 1977, Elis Regina continua reverberando através da voz da filha. O show Maria Rita Redescobrir vol. 2 não representa simplesmente o prolongamento do legado materno, mas sua ressignificação por uma artista que possui dom, magia e capacidade de encarnar o repertório de Elis com propriedade e originalidade.

Maria Rita honra a mãe tanto no sentido musical quanto político, reposicionando-se no lugar que lhe é devido: o de grande cantora do Brasil, com características vocais e interpretativas próprias que complementam e dialogam com o legado deixado por Elis Regina. O espetáculo confirma que Maria Rita renasceu artisticamente através dessa homenagem que é, simultaneamente, afirmação de sua própria identidade como intérprete.

Classificação: ★★★★★

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