Marina Iris homenageia Wilson Moreira com album

Marina Iris e a Celebração de Wilson Moreira
Marina Iris apresenta ao público 'Banzo batucada', um trabalho dedicado exclusivamente ao legado do compositor Wilson Moreira, figura fundamental na história do samba carioca. O álbum, lançado em 25 de setembro pela gravadora Biscoito Fino, marca um importante resgate da obra de um dos grandes bambas da música brasileira que completaria 90 anos em dezembro de 2026.
Wilson Moreira Serra, nascido em 12 de dezembro de 1936 e falecido em 6 de setembro de 2018, compôs ao lado de Nei Lopes algumas das maiores obras do samba moderno. Apesar de sua relevância artística, o compositor permanecia menos lembrado que outros mestres de sua geração, como Candeia, Martinho da Vila e o próprio Nei Lopes. Este novo projeto vem justamente para reposicionar a importância de Marina Iris Wilson Moreira no contexto da música popular brasileira.
Um Repertório de Raridades Musicais
A seleção de 16 sambas que compõem o álbum revela profundo conhecimento de Marina Iris sobre a obra completa de Wilson Moreira. Diferente de um tributo convencional, 'Banzo batucada' ignora deliberadamente os standards da parceria Wilson e Nei Lopes, como 'Coisa da antiga' (1977), 'Candongueiro' (1978) e 'Gostoso veneno' (1979), frequentemente interpretados por Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione e Zezé Motta.
Ao invés disso, a intérprete vasculha o baú do compositor para desenterrar composições esquecidas. Uma dessas jóias raramente executadas é 'Coité, cuia', um partido alto que Marina Iris apresenta em medley com 'Meu baio e meus balaios' (1975). Ambas as músicas haviam sido gravadas originalmente por Roberto Ribeiro, cantor de importância histórica cuja discografia merecia maior exploração pelas gerações contemporâneas.
Produção e Direção Artística
Sob direção artística da própria Marina Iris, com produção musical de Alaan Monteiro e Alessandro Cardozo, 'Banzo batucada' foi concebido como um projeto ambicioso e respeitoso. A intérprete mantém a essência atemporal da obra de Wilson Moreira, sem tentar modernizá-la ou impor tendências de mercado que descaracterizassem a força original das composições.
Este é um trabalho de quem realmente conhece a roda do samba, de quem vive e respira a tradição. Marina Iris canta com reverência genuína e compreensão profunda do universo samba criado por Wilson Moreira ao longo de décadas de criatividade artística.
Parcerias Especiais no Álbum
O disco conta com participações notáveis de figuras importantes da música brasileira. Teresa Cristina participa da interpretação de 'Alegria perdida (Yoyô de yayá)' (1974), um partido alto que Wilson Moreira criou em parceria com Candeia há mais de 50 anos.
Zeca Pagodinho colabora na faixa 'Moenda velha' (1993), samba que ele próprio havia composto com Wilson Moreira. Jorge Aragão revisita ao lado de Marina Iris 'Quintal do céu' (1986), uma composição de luminoso lirismo que exemplifica o melhor da parceria entre estes dois nomes históricos do samba.
Nei Lopes participa em 'Jongo do Irmão Café' (1981), uma gravação emotiva que conta com a presença do grupo Terreiro de Crioulo, conectando a música às raízes culturais afro-brasileiras. Chico César e Juliana Linhares surgem em 'Canteiro de obra', faixa que mistura samba, seresta, toada e baião ao tratar da migração nordestina para o sudeste.
Estrutura e Composições Inéditas
O álbum alinha 18 sambas e um texto ao longo de 14 faixas. Dos 18 sambas, 16 provêm da criação de Wilson Moreira, enquanto dois são inéditos, compostos especialmente para esta homenagem. O samba lento 'Mestre Wilson soberano' (Manu da Cuíca e Marina Iris, 2026) abre o disco com devoção, enquanto o partido alto 'Moringa do Moreira' (Marquinho China e Luiz Carlos Máximo, 2026) encerra a obra em estilo elevado.
'Moringa do Moreira', arranjado por Ana Costa, fecha o álbum com versos improvisados contando com Gabrielzinho do Irajá, Marquinho China e Mosquito, convidados que intensificam a energia da faixa final.
Revisitações de Obras Memoráveis
O samba 'Okolofé', lançado originalmente por Wilson Moreira em 1989 como homenagem ao grande ator Grande Otelo, ressurge no álbum valorizado pelo canto coletivo do Coro de Artista de Teatro, formado por Camilla Monteiro, Clara Serrão, Êlli Ferreira, Hugo Germano, Lucas Sampaio e outros nomes relevantes da cena artística carioca.
Do mesmo álbum 'Okolofé' de 1989, Marina Iris também revive 'Belo encontro' e 'Formiga miúda' (Wilson Moreira e Sérgio Fonseca), esta última em medley com 'A brilhante velha guarda' (2002), criando uma narrativa musical que conecta diferentes momentos criativos do compositor.
Profundidade Temática e Artística
A seleção inclui 'Não foi ela' (1978), uma das pérolas raras do álbum que mesmo tendo sido regravada por Zeca Pagodinho em 1997, ganha nova vida sob a interpretação sensível de Marina Iris. 'Canteiro de obra' vem acompanhada do texto 'Amanhã será melhor', do poeta pernambucano Solano Trindade (1908 – 1974), exemplificando a costura temática sofisticada que caracteriza todo o projeto.
Impacto e Significado
'Banzo batucada' representa muito mais que um simples tributo. Trata-se de um trabalho de arte que resgata a importância de Wilson Moreira fora do contexto exclusivo das rodas de samba cariocas. Marina Iris entrega ao público uma obra que finalmente coloca o compositor em posição de destaque que sempre mereceu, ainda que ocasionalmente uma ou outra composição possa soar menos atraente no conjunto da obra.
Este álbum serve como convite para que novas gerações de ouvintes descubram e apreciem a excelsa criatividade de um compositor de alta estirpe, cuja obra merecia bem mais reverência e reconhecimento público do que historicamente recebeu na indústria da música brasileira.




