Misoginia de Nolan na Odisseia: crítica de especialista em mitologia grega

A Odisseia e suas mulheres poderosas apagadas na tela
A adaptação cinematográfica de A Odisseia realizada por Christopher Nolan gerou intensa discussão sobre a abordagem das personagens femininas. Para Cláudio Moreno, professor especialista em cultura clássica e criador do podcast Noites Gregas, a principal falha do filme não reside apenas na simplificação visual, mas na misoginia de Nolan ao descartar a complexidade das mulheres que estruturam a narrativa original. A epopeia homérica, escrita há quase três mil anos, apresenta figuras femininas dotadas de poder, inteligência e influência decisiva na jornada do protagonista.
De acordo com Moreno, Homero construiu um livro com mulheres notavelmente poderosas, cujas estratégias, conselhos e conflitos atravessam toda a narrativa. Personagens como Penélope, Circe, Calipso, Atena e Nausícaa não funcionam como figuras secundárias na obra original, mas representam elementos centrais que dão profundidade à história. A adaptação cinematográfica, no entanto, reduziu significativamente o papel dessas personagens, privilegiando ação e espetáculo visual em detrimento da construção psicológica que as tornam memoráveis.
Penélope: a rainha inteligente que sustenta o reino
Na Odisseia original, Penélope transcende a imagem tradicional da esposa fiel que aguarda passivamente o retorno do marido. Interpretada por Anne Hathaway no filme, a personagem na epopeia mantém sozinha o reino de Ítaca durante vinte anos—dez na Guerra de Troia e outros dez na jornada de retorno de Ulisses. Numa sociedade profundamente patriarcal, ela utiliza sua inteligência aguçada para adiar o assédio de pretendentes que desejam casar-se novamente com ela e, assim, tomar o trono.
Segundo Moreno, Penélope estabelece provas sofisticadas para confirmar a identidade de Ulisses quando ele retorna, demonstrando que sua lealdade não é ingênua, mas fruto de raciocínio estratégico. A relação entre os dois personagens também evidencia a força dela: diferentemente de outros guerreiros que mantinham concubinas durante a Guerra de Troia, Ulisses permanecia fiel a Penélope. Apenas quando lançado pelos deuses em sua longa viagem é que o herói se envolve com outras figuras femininas. Para Moreno, o filme eliminou essa dimensão crucial, reduzindo Penélope a um papel secundário quando ela deveria ocupar posição central na narrativa.
Circe: a feiticeira complexa transformada em simples antagonista
Uma das personagens femininas mais poderosas da Odisseia é Circe, retratada como feiticeira capaz de revelar ao herói os caminhos necessários para sua jornada. No filme, interpretada por Samantha Morton, ela aparece como uma vizinha furiosa e incompreensível, perdendo completamente a complexidade que Homero lhe atribui.
Na epopeia original, Circe reconhece em Ulisses o homem profetizado e se apaixona por ele. Os dois vivem juntos durante um período marcado pela independência mútua, não pela submissão. Conforme explica Moreno, quando a paixão se extingue naturalmente, ambos prosseguem suas vidas de forma civilizada e respeitosa. Mais importante ainda, é Circe quem instrui Ulisses sobre como visitar o mundo dos mortos e continuar sua viagem de retorno a Ítaca. Sua contribuição é decisiva para o desfecho da história, transformando-a numa personagem essencial ao invés de meramente decorativa.
Calipso: a ninfa apaixonada transformada em cuidadora
Após deixar a ilha de Circe, Ulisses chega a Calipso, uma ninfa que se apaixona por ele profundamente. Na narrativa homérica, ela é descrita como uma mulher ardente cuja relação com o herói inverte papéis tradicionais: é ela quem toma a iniciativa, cuida dele e exige o cumprimento de suas obrigações matrimoniais. Nolan reduz essa dinâmica ao transformar Calipso, interpretada por Charlize Theron, numa simples enfermeira atraente preocupada com seu paciente.
A cena mais significativa envolvendo Calipso foi eliminada do filme: ela oferece a Ulisses a imortalidade, aquilo que todo mortal deseja, mas ele recusa em favor de retornar a casa e estar com Penélope. Essa negação é extraordinária na literatura grega, pois nenhum outro personagem mitológico rejeita a imortalidade. Quando Zeus, através de Hermes, ordena a Calipso que liberte Ulisses, ela reage com indignação numa das primeiras cenas de revolta feminina da literatura ocidental, protestando contra a vontade masculina. O filme omite essa cena, deixando a personagem morna e descaracterizada.
Atena: a deusa reduzida a uma mocinha ingênua
Atena é a divindade que acompanha toda a jornada de Ulisses na Odisseia, protegendo-o constantemente e intercedendo a seu favor perante Zeus. Moreno a descreve como uma das figuras mais poderosas e interessantes do Olimpo, mas que foi completamente esvaziada na adaptação cinematográfica. Interpretada por Zendaya no filme, ela aparece como uma mocinha tímida e ingênua, uma pálida sombra da deusa dos olhos brilhantes descrita por Homero.
Na epopeia, é Atena quem convence Zeus a permitir o retorno de Ulisses, tornando-se fundamental para toda a estrutura narrativa. Sua ausência de agência e poder na versão cinematográfica representa uma perda significativa para a compreensão da história e da relação entre deuses e mortais que estrutura a obra original.
Nausícaa: o maior crime da adaptação
Para Moreno, a ausência de Nausícaa no filme de Nolan constitui o maior erro da adaptação. Na Odisseia, essa jovem princesa encontra Ulisses após ele naufragar na ilha dos feácios. Ela o acolhe generosamente e oferece a possibilidade de uma vida nova e próspera em um reino maravilhoso. A princesa se apaixona pelo herói, e seu próprio pai sugere desejaria tê-lo como genro.
Apesar da oportunidade de começar uma nova existência em um reino florescente, Ulisses escolhe partir. Seu despedida de Nausícaa é descrita como delicadíssima, reafirmando seu compromisso com Penélope e Ítaca. Eliminar essa personagem e seu arco narrativo do filme representa não apenas o apagamento de mais uma figura feminina significativa, mas também a remoção do último e crucial teste que Ulisses enfrenta antes de retornar a casa.
Consequências das escolhas narrativas de Nolan
As mudanças implementadas por Christopher Nolan transcendem as personagens femininas e alteram a própria essência da Odisseia, conforme avalia Moreno. O diretor privilegiou a dimensão visual—batalhas, cenários, efeitos especiais—em detrimento dos elementos que proporcionam profundidade à obra. Segundo o especialista, o filme se tornou uma história de aventura com paisagens maravilhosas, mas desperdiçou a substância que torna a Odisseia única e profundamente humana.
Entre os aspectos perdidos está a transformação pessoal de Ulisses marcada por perdas, escolhas e aprendizados. A passagem pelo mundo dos mortos, episódio central do poema onde o herói confronta figuras do passado e as consequências da guerra, perde sua profundidade. O filme também erra ao tentar transformar Ulisses num personagem movido pelo arrependimento bélico, leitura incompatível com o contexto da epopeia homérica. Para Moreno, a luta não era para Ulisses uma maldade, mas simplesmente a vida dele.
A crítica de Moreno dialoga com um debate histórico sobre a forma como Christopher Nolan constrói personagens femininas ao longo de sua carreira. Em filmes anteriores como Origem, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Oppenheimer, suas personagens mulheres frequentemente possuem menos espaço narrativo e profundidade psicológica comparadas aos protagonistas masculinos, funcionando principalmente em relação às trajetórias dos homens ao invés de desenvolverem seus próprios conflitos e arcos dramáticos completos.




