PF revela falhas graves em controle entre BRB e Banco Master

Investigação da Polícia Federal desvenda operações irregulares
A Polícia Federal Banco Master BRB ganhou novos contornos após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), remover o sigilo das principais investigações. Os documentos desvelam um padrão sistêmico de irregularidades que comprometem a segurança das operações realizadas entre as duas instituições financeiras.
Segundo a perícia produzida pela Polícia Federal, a Polícia Federal Banco Master BRB revela que grande parcela dos créditos adquiridos pelo BRB estava associada a operações fraudulentas. Os investigadores constatam que as negociações prosseguiram mesmo diante de sinais claros de inconsistências e fraudes nas carteiras comercializadas.
Pagamentos realizados antes de análises técnicas obrigatórias
Um dos achados mais preocupantes refere-se ao procedimento invertido de compras. O BRB desembolsava recursos financeiros para adquirir carteiras de crédito antes que suas equipes técnicas completassem as avaliações fundamentais sobre a qualidade desses ativos.
Das 84 operações de compra de carteiras destinadas a pessoas físicas, que totalizaram R$ 17,58 bilhões, em 22 delas, no montante de R$ 7,63 bilhões, pelo menos uma avaliação técnica obrigatória foi concluída somente após o pagamento. Isso representa mais de um quarto das operações examinadas, correspondendo a 43,41% do valor total desembolsado.
As análises que deveriam preceder o pagamento incluem verificação da existência dos créditos, avaliação do risco de inadimplência, confirmação da adequação do preço, impacto na liquidez, necessidade de garantias, regularidade contratual e cálculos fiscais corretos. Quando realizadas após o desembolso, tais análises perdem sua função preventiva essencial.
Estratégia de fracionamento de compras para burlar limites de decisão
A investigação identificou que o BRB segmentou as compras de carteiras do Banco Master em operações menores, permitindo que cada negócio permanecesse dentro do limite autorizado pela Diretoria Colegiada sem precisar de aprovação do Conselho de Administração.
O limite decisório da Diretoria era de R$ 750 milhões por operação. Quando ultrapassado, as decisões deveriam ser submetidas ao Conselho de Administração. Porém, a Diretoria Colegiada autorizou 25 operações que somaram R$ 17,5 bilhões, sendo que 21 dessas foram fixadas exatamente no limite de R$ 750 milhões.
Em janeiro de 2025, por exemplo, quatro compras de R$ 750 milhões cada foram autorizadas em apenas dois dias de intervalo, totalizando R$ 3 bilhões. A uniformidade dos valores, a proximidade temporal e o foco exclusivo no Banco Master indicam que se tratava de uma estratégia única, subdividida para contornar controles governança corporativa.
Alertas internos ignorados sobre riscos do Banco Master
Documentos internos do BRB já haviam sinalizado preocupações quanto à saúde financeira do Banco Master antes da intensificação das compras de carteiras. Em outubro de 2023, a agência Fitch Ratings destacou a volatilidade dos resultados, a complexidade do modelo de negócios e a exposição a ativos com baixa liquidez.
Relatórios técnicos posteriores apontaram que os ativos do Master cresceram 83,5% em apenas 12 meses, atingindo R$ 50,9 bilhões. O Índice de Basileia foi classificado como "muito baixo", indicando fraca capacidade de absorção de riscos. O caixa representava menos de 10% dos depósitos, sinalizando dependência de captação via plataformas de investimento.
Um relatório de novembro de 2024 produzido pela RISKBank/Eleven indicou que o volume de crédito do Master equivalia a 7,4 vezes seu patrimônio líquido, com caixa reduzido e estratégia comercial agressiva. Apesar dessas informações circularem internamente no BRB, os peritos não encontraram documentação de uma avaliação ampla, independente e sistematizada dos riscos de concentrar tantos negócios no Banco Master.
Descobertas de problemas nas carteiras não interrompem operações
Em fevereiro de 2025, o BRB criou um grupo de trabalho para verificar as carteiras adquiridas do Banco Master. O relatório inicial apontou dados fictícios, controles manuais deficientes, falta de documentação dos empréstimos, ausência de comprovação de descontos em folha de pagamento e divergências financeiras superiores a R$ 1,39 bilhão.
Apesar dessas constatações gravíssimas, a diretoria autorizou mais R$ 2 bilhões em compras ao longo de abril. Uma inspeção realizada revelou R$ 15,5 milhões em parcelas já pagas mas não repassadas ao banco público.
O relatório final de 19 de maio indicou R$ 265,9 milhões em repasses devidos e mais de 1 milhão de parcelas vencidas somando R$ 316,5 milhões. Mesmo assim, o BRB desembolsou mais R$ 5,23 bilhões ao Master posteriormente. Os pagamentos continuaram inclusive após alertas formais sobre deterioração da liquidez do próprio BRB.
Concentração excessiva em instituição única amplifica riscos
A dependência do BRB em relação ao Banco Master atingiu níveis críticos. Em junho de 2025, 90,31% das carteiras adquiridas pelo banco público estavam concentradas no Master, representando R$ 19,78 bilhões de um total de R$ 21,91 bilhões em operações similares.
Essa concentração extrema viola princípios básicos de diversificação de riscos. De cada dez reais mantidos nessas carteiras, aproximadamente nove estavam expostos a uma única instituição, amplificando a vulnerabilidade do BRB a qualquer dificuldade financeira do Banco Master.
Padrão de gestão fraudulenta caracterizado pela perícia
A análise abrangente de R$ 47,78 bilhões em operações revelou um padrão recorrente de práticas que se repetiram sistematicamente. Os peritos identificaram sequência consistente incluindo pagamentos antes de análises técnicas, pareceres finalizados após liberação de recursos, segmentação de compras para contornar limites decisórios, ausência de avaliação independente de riscos e continuidade dos pagamentos apesar de alertas.
A Polícia Federal conclui que a utilização reiterada dessa forma para neutralizar a substância das decisões configura "gestão fraudulenta" e não meramente "gestão temerária". Os mecanismos empregados reduziam sistematicamente a eficácia dos controles internos do BRB, caracterizando um padrão deliberado de contorno de salvaguardas institucionais destinadas a proteger o banco público.




