Quadro Nazista Roubado na Guerra Será Devolvido à Herdeira

Obra Roubada por Nazistas Finalmente Retorna ao Verdadeiro Dono
Uma valiosa obra roubada por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial reaparece na Argentina após décadas desaparecida e será devolvida à legítima herdeira. Nesta sexta-feira, um tribunal argentino homologou um acordo histórico que coloca fim a um longo processo jurídico iniciado em 2025, garantindo a restituição de "Retrato de uma Dama" a Marei von Saher, única herdeira sobrevivente do conceituado marchand judeu holandês Jacques Goudstikker.
O Acordo Que Encerra a Disputa Judicial
Patricia Kadgien, filha de um oficial nazista de alto escalão que se refugiou na Argentina, e seu esposo Juan Carlos Cortegoso foram acusados de receptação qualificada após a descoberta da pintura do século 18. Por meio do acordo obtido pela agência Associated Press, ambos concordaram em renunciar completamente a qualquer direito sobre a obra de arte, abrindo caminho para sua devolução à verdadeira proprietária.
Conforme os termos do acordo homologado pela justiça argentina, o casal aceitou abrir mão de reivindicações futuras em troca da suspensão do julgamento criminal. Adicionalmente, ficarão sujeitos a supervisão judicial por dois anos, período durante o qual deverão efetuar pagamentos a instituição hospitalar localizada em Mar del Plata e manter as autoridades informadas sobre seu paradeiro.
Uma Descoberta Fortuita Que Mudou Tudo
A história dessa obra roubada por nazistas começou de forma inesperada quando repórteres holandeses investigavam Friedrich Kadgien, oficial nazista que escapou para a Argentina após o término da guerra. Ao examinar um anúncio imobiliário online de um imóvel rural em Mar del Plata, os jornalistas identificaram a pintura pendurada sobre um sofá de veludo verde.
Após a publicação das descobertas pelo jornal "Algemeen Dagblad", o anúncio foi removido poucas horas depois. Policiais realizaram diversas buscas na residência, mas inicialmente não conseguiram localizar a obra. Após mais de uma semana de investigações, o advogado de Kadgien finalmente entregou a pintura às autoridades argentinas.
Autenticação e Valor da Obra Histórica
Durante muitos anos, o retrato foi atribuído ao renomado pintor barroco italiano Giuseppe Vittore Ghislandi, conforme constava nos registros da coleção de Goudstikker e era exibido como tal em Amsterdã antes da guerra. Contudo, uma perícia solicitada pela Justiça e executada pela Academia Nacional de Belas Artes da Argentina chegou a conclusão distinta, atribuindo a autoria ao artista italiano Giacomo Antonio Melchiorre Ceruti.
Especialistas autenticaram de forma definitiva a pintura como integrante da coleção original de Goudstikker, estimando seu valor em aproximadamente 250 mil euros, equivalente a cerca de 1,49 milhão de reais. A obra representa significativa importância histórica e artística, representando um dos muitos bens culturais saqueados durante o regime nazista.
A Trajetória de Jacques Goudstikker e Sua Coleção
Jacques Goudstikker foi um dos mais importantes negociantes de arte europeus no período anterior à Segunda Guerra Mundial, acumulando um acervo notável que incluía obras de mestres como Rembrandt e Vermeer. Quando a Alemanha nazista invadiu os Países Baixos em maio de 1940, Goudstikker tentava fugir de Amsterdã com sua família, mas pereceu em um navio naufragado durante a fuga.
Estima-se que aproximadamente 1.100 obras da coleção Goudstikker foram vendidas sob coação a Hermann Göring, braço direito de Adolf Hitler, que acumulou extenso acervo artístico durante a ocupação nazista. A venda ilegítima das obras representava parte da sistemática pilhagem de bens de judeus perpetrada pelo regime totalitário.
O Papel de Friedrich Kadgien no Roubo de Arte
Friedrich Kadgien ocupava posição de consultor financeiro de Hermann Göring, sendo responsável por operações com moeda estrangeira, metais preciosos e venda de bens confiscados pelo regime nazista. Permanece obscuro o caminho exato pelo qual a obra chegou às mãos de Kadgien, embora seja certo que integrava o esquema de apropriação de bens culturais.
Após a derrota alemã, Kadgien conseguiu escapar da Europa, inicialmente refugiando-se na Suíça e posteriormente migrando para a Argentina, onde faleceu em 1978 sem nunca ser detido ou acusado de crimes de guerra. Seus descendentes herdaram a pintura roubada por nazistas, guardando-a em segredo até sua descoberta em 2025.
Perspectivas Futuras e Outras Obras Localizadas
Marei von Saher, atualmente residente em Greenwich, Connecticut, dedicou décadas na busca pela recuperação das obras de arte saqueadas de sua família. Seus advogados informaram que ela concordou em permitir a exibição da pintura na Argentina antes de sua transferência definitiva para suas mãos.
Durante as operações policiais realizadas em imóveis pertencentes a Kadgien e sua irmã em Mar del Plata, as autoridades também apreenderam duas pinturas do século 19, além de gravuras e impressões adicionais. Investigações continuam em andamento para determinar se essas obras também constituem parte do roubo de arte perpetrado durante a Segunda Guerra Mundial, potencialmente ampliando o número de peças a serem restituídas a herdeiros legítimos.




