Seis milhões de deportados enfrentam recomeço no Afeganistão

O retorno forçado dos deportados ao Afeganistão
A situação dos deportados que retornam ao Afeganistão representa uma das maiores crises humanitárias da atualidade. Conforme dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), aproximadamente seis milhões de pessoas foram obrigadas a voltar ao país nos últimos anos, formando um contingente populacional equivalente ao de uma nação inteira. Esse fluxo de deportados caracteriza-se como o maior deslocamento transfronteiriço atualmente registrado globalmente, refletindo a complexidade geopolítica da região asiática.
Charlie Goodlake, porta-voz do Acnur, enfatiza a magnitude desta mobilização: "em pouco menos de três anos, vimos seis milhões de pessoas retornarem ao Afeganistão". Segundo o especialista, "na história recente, nunca vimos um movimento de retorno dessa dimensão". Essa observação sublinha como os deportados enfrentam circunstâncias sem precedentes no cenário internacional contemporâneo.
Paquistão e Irã intensificam operações de deportação
Os dois países vizinhos do Afeganistão, Paquistão e Irã, implementaram políticas cada vez mais rigorosas contra imigrantes sem documentação. O Paquistão, que historicamente abrigou milhões de afegãos, iniciou operações sistemáticas de expulsão, afetando não apenas indocumentados, mas também indivíduos com registro oficial.
As autoridades paquistanesas justificam essas medidas alegando questões de segurança nacional e pressões econômicas. Em fevereiro, a organização Human Rights Watch documentou operações de porta em porta, buscas domiciliares noturnasidades e prisões sem mandados. Já no Irã, que afirmava abrigar mais de quatro milhões de afegãos sem documentação, as deportações em massa intensificaram-se particularmente após conflitos regionais ocorridos em junho de 2025.
O Centro de Direitos Humanos no Irã acusou autoridades iranianas de aproveitar o clima pós-conflitual para estigmatizar os imigrantes afegãos, acusando-os de espionagem. Os deportados, portanto, enfrentam não apenas a repatriação forçada, mas também perseguição e desconfiança nos países de origem ou trânsito.
Histórias de quem nunca pisou no Afeganistão
Nazia, uma mulher de trinta e cinco anos, representa uma realidade perturbadora: nasceu no Paquistão durante o refúgio da família, nunca tendo visitado o Afeganistão anteriormente. Ao cruzar o ponto de passagem de Torkham, conhecida como "Ponto Zero", ela expressa ambivalência: "É bom estar no meu próprio país", mas logo lamenta, "nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer".
Sarwar é outro exemplo emblemático. Saiu do Afeganistão há quarenta e cinco anos durante a invasão soviética, tendo praticamente toda sua família nascida no Paquistão. Ao retornar com sete irmãos e suas famílias—um grupo de quarenta pessoas—, ele relata: "Passamos muito tempo lá, então é claro que fiquei arrasado quando nos obrigaram a deixar nossa casa". Paradoxalmente, mesmo diante dessa realidade traumática, Sarwar reconhece um alívio relativo: "Mas, apesar de toda essa dor, também estou feliz porque finalmente me livrei do assédio da polícia do Paquistão".
Todas as famílias entrevistadas relataram sofrer preconceito sistemático e assédio pelas autoridades paquistanesas, criando uma situação na qual os deportados se veem pressionados entre duas realidades adversas: a perseguição no país de acolhimento e a incerteza no retorno ao Afeganistão.
Condições precárias na fronteira
A paisagem na região fronteiriça de Torkham reflete a urgência humanitária da situação. Organizações das Nações Unidas e entidades humanitárias estabeleceram acampamentos com abrigos de lona e plástico para acolher provisoriamente os deportados. Muitas dessas estruturas encontram-se já danificadas pelo clima extremo, oferecendo proteção inadequada contra temperaturas que chegam a quarenta e um graus Celsius.
Zarina, uma mulher de quarenta anos e cunhada de Sarwar, expressa a vulnerabilidade vivenciada: "nós não temos recursos para abrir um negócio ou ganhar a vida, nós não temos sequer uma barraca para morar". Ela representa milhões de deportados que retornam praticamente sem recursos materiais, tendo deixado para trás décadas de vida construída em países vizinhos.
Preocupações específicas com mulheres e meninas
Um dos aspectos mais preocupantes para os deportados refere-se à situação das mulheres e meninas sob o governo do Talebã. A organização islâmica implementou restrições significativas à participação feminina na vida pública, incluindo exclusão do ensino médio e educação superior.
Zarina expressa angústia particular: "Olhe para elas, são todas meninas. É claro que estou preocupada". Essa preocupação não é infundada, considerando que fontes estimam que até duzentos e cinquenta mil afegãos no Paquistão ainda correm risco, entre os quais mulheres e meninas que perderiam acesso à educação caso sejam deportadas.
Um ex-segurança afegão, que foi inicialmente deportado do Irã e posteriormente do Paquistão, vive em isolamento completo por temer represálias. Embora o Talebã tenha anunciado anistia para membros do governo anterior, forças de segurança e funcionários públicos, essa promessa não inspirou confiança: "Não confio nessa anistia porque muitos dos meus colegas foram mortos".
Crise humanitária e ajuda internacional
A situação dos deportados agrava-se pela profunda crise humanitária que assola o Afeganistão. A ONU estima que vinte e um vírgula nove milhões de pessoas—quase metade da população—necessitarão de assistência para sobreviver neste ano. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou que um milhão de crianças enfrenta desnutrição que "ameaça as suas vidas".
Os cortes severos na ajuda internacional afetam particularmente o Afeganistão, que permanece sujeito a sanções relacionadas ao terrorismo e violações de direitos humanos. O governo do Talebã reconhece a necessidade de assistência, mas as políticas restritivas contra mulheres dificultam a mobilização de apoio internacional.
Amir Khan Muttaqi, ministro das Relações Exteriores do Talebã, reconhece pressões: "O retorno dessas pessoas exerce pressão sobre o país, mas, no longo prazo, será benéfico tanto para elas quanto para o Afeganistão". Contudo, Charlie Goodlake do Acnur adverte: "Também sabemos que muitas das restrições e determinações impostas por eles, principalmente contra mulheres e meninas, dificultam a obtenção de apoio internacional".
O desafio do recomeço
Os deportados enfrentam a realidade de reconstruir suas vidas praticamente do zero em um país marcado por instabilidade econômica e restrições políticas. Muitos passaram décadas no exterior, desenvolvendo famílias e comunidades em Paquistão e Irã, apenas para serem compelidos a abandonar tudo.
O Paquistão confirmou que dezesseis mil afegãos em situação de extrema vulnerabilidade receberam isenções temporárias de deportação por razões humanitárias, decisão bem recebida pela ONU. Contudo, essa medida beneficia apenas uma fração dos milhões de deportados, deixando a maioria enfrentando um futuro incerto no Afeganistão governado pelo Talebã.




