Sertanejo universitário e agronejo: a evolução sonora que dominou Brasil

A hegemonia sonora da música sertaneja no Brasil moderno
A música sertaneja consolidou-se como fenômeno cultural dominante no Brasil, refletindo transformações profundas na sociedade. Jonathan Scarello dos Anjos, conhecido artisticamente como Panda, é a voz por trás de "Eu Te Seguro", atualmente a canção mais reproduzida do país segundo levantamento da Pró-Música Brasil. No entanto, este sucesso representa apenas o capítulo mais recente de uma jornada que começou aproximadamente cem anos atrás, quando a música sertaneja nasceu nas gravações pioneiras e evoluiu para se tornar a trilha sonora das cidades contemporâneas.
O gênero que hoje domina as plataformas de streaming pouco se parece com as composições caipiras que surgiram na transição entre os anos 1920 e 1930. A transformação constante da música sertaneja evidencia como a indústria cultural se reinventa, incorporando valores e estéticas de origens diversas. Historiadores e pesquisadores especializados dividem essa evolução em fases distintas, cada uma marcando um período específico da modernização brasileira.
Os primórdios: quando a música caipira se tornou produto de consumo
O marco fundador da música sertaneja como produto comercial ocorreu em 1929, com a gravação de "Jorginho do Sertão", composição do jornalista e folclorista Cornélio Pires baseada em fragmentos de causos populares. A dupla Mariano e Caçula, irmãos que viviam em Piracicaba, foi responsável por entoar aquela que se conhece como moda de viola. O contexto dessa gravação inaugural revela muito sobre a relação entre indústria e gêneros populares: nenhuma gravadora desejava registrar música caipira, levando Cornélio Pires a alugar um estúdio e custear a prensagem com recursos próprios.
Este episódio representa o primeiro lançamento independente da história musical brasileira. A profissionalização dos músicos sertanejos ganhou impulso durante esse período inicial. Raul Torres, natural de Botucatu, abandonou a farmácia para dedicar-se integralmente à carreira artística, formando parcerias que consolidaram sua trajetória. Estima-se que naquele período o gênero já controlava aproximadamente 40% da ainda incipiente indústria fonográfica nacional.
Tonico & Tinoco: a dupla que transcendeu fronteiras rurais
A segunda fase significativa da música sertaneja chegou com a difusão radiofônica amplificando o alcance do gênero para cidades pequenas e zonas rurais. Os irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez, conhecidos como Tonico & Tinoco, tornaram-se os maiores expoentes deste período. Sua carreira prolífica incluiu gravação de aproximadamente mil canções, 83 discos lançados e estimadamente 150 milhões de cópias vendidas em todos os formatos, consolidando-os como a dupla que mais vendeu discos globalmente.
Tonico & Tinoco significaram o rompimento de barreiras entre públicos rurais e urbanos. A música caipira passou a ser apreciada por pessoas sem vínculos afetivos ou biográficos com ambientes rurais. Este período estabeleceu padrões estéticos que perdurariam: a dupla como formação padrão, o violão e a viola como instrumentos centrais, e a incorporação de ritmos tradicionais como catira e folia de reis.
A narrativa nas letras deslocou-se do registro cotidiano das rotinas agrícolas para expressões nostálgicas, refletindo a consolidação do público urbano. O êxodo rural transformou-se em tema central, tematizado com tonalidades de saudade e romantismo crescente. O término da década de 1940 marcou consolidação formal da música sertaneja como identidade musical hegemônica.
Influências internacionais e transformações nos anos 1950
Durante os anos 1950, a designação "música sertaneja" tornou-se predominante, substituindo termos anteriores como "música caipira", "música do interior" e "música do sertão". O gênero incorporou elementos estrangeiros, principalmente da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana, demonstrando sua capacidade de assimilação cultural. Ritmos tradicionais como recortado, cururu e cateretê ganharam presença cada vez mais marcante.
Este período evidencia uma característica fundamental da música sertaneja: sua natureza antropofágica de absorver influências de múltiplas origem sem perder identidade própria. A estrutura harmônica do canto em terças permaneceu como elemento distintivo, onde dois cantores simultaneamente cantam em intervalos harmônicos específicos.
A transformação urbana dos anos 1960 e 1970
Os anos 1960 trouxeram metamorfose significativa, refletindo nova realidade demográfica brasileira. Os filhos de migrantes rurais, nascidos em grandes cidades, necessitavam de repertório que sintetizasse educação tradicional familiar com modernidade urbana. Léo Canhoto & Robertinho, dupla formada por Leonildo Sachi e José Simão Alves, inauguraram esta terceira fase, incorporando guitarras elétricas e elementos sonoros tipicamente mexicanos enquanto acentuavam temática amorosa nas composições.
A transformação acelerou-se nos anos 1980, quando a gravadora Sony percebeu potencial comercial em reestruturar acusticamente o gênero. Surgiu então o "sertanejo romântico", subgênero que alcançou sucesso monumental com duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e Rick & Renner. Este período marcou aceitação definitiva pela grande mídia, embora o gênero já dominasse culturalmente há décadas.
A incorporação de elementos bregas caracterizou esta fase, enfatizando expressões exageradas de amor e romantismo. A indústria fonográfica, ávida por inovação, investiu sistematicamente em produção e divulgação. O sertanejo romântico refletia também influências de pagode contemporâneo e música romântica norte-americana dos anos 1980.
Sertanejo universitário: quando a tradição encontra o pop
Na virada do século XXI emergiu o "sertanejo universitário", refletindo fusão crescente com estilos pop, rock e axé. Os artistas desta fase funcionam simultaneamente como astros pop, executando música eletrônica em português com características do gênero original. A temática das letras deslocou-se para dialogar com públicos jovens urbanos, alternando entre romantismo tradicional e efemeridade de relacionamentos amorosos contemporâneos.
O surgimento do feminejo aproximadamente uma década atrás representou movimento cultural significativo, elevando mulheres historicamente minoritárias como principais vozes do gênero. Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes consolidaram-se como maiores expoentes, ampliando perspectivas e temáticas do universo sertanejo.
Agronejo: a versão atual e suas implicações sociais
O agronejo representa o desdobramento mais recente da música sertaneja, caracterizado pela incorporação de batidas eletrônicas, elementos pop e funk. Este subgênero frequentemente tematiza ostentação, aspectos sensuais e relacionamentos casuais, refletindo práticas comerciais questionáveis. Grande parte da indústria vincula-se a estruturas de corrupção mediante cachês milionários em shows financiados por prefeituras e empresas do setor agropecuário.
O agronejo alimenta ideologia não-crítica de idolatria ao agronegócio, defendendo cultura do latifúndio em suas narrativas. Pesquisadores identificam apropriação deste segmento pela extrema-direita política. Comparativamente, músicas como "Ai Se Eu Te Pego" de Michel Teló integraram elementos forró, enquanto produções contemporâneas incorporam reggaeton e música eletrônica, mantendo característica fundamental da música sertaneja de absorver estéticas diversas.
Transformações geográficas refletidas nas narrativas musicais
A música sertaneja contemporânea representa expressão cultural das cidades pequenas e médias brasileiras, cujos artistas frequentemente originam-se destes centros urbanos secundários. O Brasil transformou-se em país de cidades pequenas e médias desde os anos 1990, quando grandes metrópoles cessaram crescimento exponencial. Este fenômeno demográfico encontra reflexo direto nas narrativas e temáticas sertanejas.
O historiador Gustavo Alonso destaca que a música sertaneja retrata este processo de reorganização territorial. O deslocamento não representa apenas mudança geográfica, mas transformação de valores, consumo e práticas culturais. A permanência da dupla como símbolo imaginário do gênero contrasta com prevalência de carreiras solo no sertanejo universitário contemporâneo.
Características musicais inerentes ao gênero
A estrutura fundamental da música sertaneja baseia-se na canção-romance, narrativa que conta histórias específicas refletindo experiências coletivas. Povos sem tradição grafocêntrica dependiam da música para preservar integridade de narrativas históricas. A música sertaneja mantém esta função, registrando experiências de fazenda, cidade interior, migração para capitais, traição, jogos e bebida.
O gênero contém 17 ritmos distintos em seu universo musical, marcando características instrumentais e rítmicas próprias. A canção-crônica permanece central, diferenciando-se pela capacidade de sintetizar informação narrativa em estrutura musical memorável. O que genuinamente transformou-se não foi o olhar do gênero, mas seu objeto: o mundo rural evoluiu para agronegócio, e a música sertaneja acompanhou esta metamorfose refletindo novas realidades.
Conclusão: um guarda-chuva de identidades populares
A música sertaneja transcendeu categoria de gênero para tornar-se grande guarda-chuva englobando múltiplas expressões populares. Cada geração incorpora à sua maneira estéticas inovadoras, mantendo raízes na tradição caipira original. Do caipira dos anos 1920 ao agronejo contemporâneo, passando por Tonico & Tinoco, sertanejo romântico e sertanejo universitário, o gênero permanece vivo, mutável e absolutamente refletor das transformações sociais brasileiras, consolidando-se como fenômeno cultural dominante que continua evoluindo conforme a sociedade muda.




