China reduz dependência de importações de alimentos com novo plano

China aperta o cerco na dependência de importações de alimentos
A estratégia de reduzir a dependência de importações de alimentos representa um dos pilares mais importantes da política estatal chinesa dos próximos anos. O presidente Xi Jinping vem repetindo há mais de uma década que "a tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa", uma mensagem que sintetiza perfeitamente o novo direcionamento do país asiático.
Esse compromisso ganhou contornos ainda mais precisos com a publicação do 15º Plano Quinquenal, divulgado no início de 2025 para orientar as políticas públicas entre 2026 e 2030. O documento estabelece metas ambiciosas para ampliar a produção doméstica de produtos estratégicos, entre eles a soja, o milho e as carnes, justamente aqueles que o Brasil fornece em maior quantidade ao mercado chinês.
Os números por trás da autossuficiência alimentar
O plano chinês contempla objetivos específicos que refletem a seriedade do compromisso com a redução da dependência de importações de alimentos. A meta é elevar a capacidade de produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030, comparando-se com pouco menos de 715 milhões colhidas no ano anterior. Na frente tecnológica, o governo pretende aumentar de 64% para 67% a contribuição da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento agrícola.
Quanto à autossuficiência em proteína animal, a China trabalha para alcançar 85% em carne bovina e ovina, passando dos atuais 70%. Para o leite, o objetivo é chegar a 70% de autossuficiência, ante os 62% registrados recentemente. Na dimensão do farelo de soja, um insumo crucial para a alimentação animal, a intenção é reduzir sua participação na ração de aproximadamente 14% para menos de 10% até 2030.
Os dados revelam que a China já superou a meta em grãos básicos como arroz e trigo, cuja produção supera em mais de 100% a demanda interna, conforme informações do Escritório Nacional de Estatística do governo. Porém, permanece distante das metas em carnes e laticínios, precisando intensificar seus esforços.
Por que a China não consegue ser totalmente autossuficiente
Apesar do tamanho territorial superior ao do Brasil, a China enfrenta limitações estruturais que a impedem de alcançar total independência alimentar. Grande parte do território é formada por regiões montanhosas, áridas e desérticas. Além disso, o país concentra menos de 5% da água doce disponível no planeta, um fator crítico para a produção agrícola em escala.
Especialistas ressaltam que esses obstáculos geográficos significam que a redução da dependência de importações de alimentos passará fundamentalmente pelo aumento da produtividade, não pela expansão territorial. A estratégia envolve tecnologias como melhoramento genético de sementes, maquinário mais avançado e sistemas de irrigação mais eficientes.
Impactos diretos na exportação brasileira
O Brasil já sente os efeitos dessa reorientação estratégica. No mercado de grãos, a redução foi dramática: a China reduziu as importações de milho de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025, após uma safra recorde doméstica. Como resultado, as exportações brasileiras de milho para o país caíram 20,8% no período anterior.
Na carne bovina, o impacto apareceu sob a forma de cotas. Em janeiro deste ano, a China estabeleceu uma sobretaxa de 55% sobre as importações que ultrapassassem 1,1 milhão de toneladas, justificada oficialmente como medida de salvaguarda para proteger a indústria doméstica. Segundo levantamentos de consultores do setor, essa cota já foi ultrapassada em julho.
Para a soja, o cenário é diferente. No ano passado, a China importou quase 112 milhões de toneladas, com mais de 70% originária do Brasil. A produção chinesa responde por apenas 20% da demanda interna, o que significa que essa commodity permanecerá crucial para o abastecimento do país asiático.
A dependência que não desaparece
Apesar dos esforços em aumentar a produção interna, especialistas avaliam que a redução da dependência de importações de alimentos não levará a uma ruptura nas relações comerciais. A própria realidade matemática impede tal cenário. A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina enquanto consome entre 11 e 12 milhões, deixando um déficit estrutural que agências internacionais como a OCDE projetam chegará perto de 4 milhões de toneladas anuais até 2032.
Essa lacuna permanente sinaliza que as cotas funcionam como um escudo temporário para reorganizar a produção doméstica, não como uma porta que fecha completamente. O consultor Theo Paul Santana explica que o cenário não aponta para uma queda drástica das importações, mas exige adaptação estratégica das empresas brasileiras.
Como o Brasil deve se posicionar
A saída apontada pelos especialistas passa por uma mudança de estratégia comercial. Em vez de vender mais toneladas, o Brasil precisa vender melhores toneladas. Isso significa agregar valor, abandonar a commodity pura para oferecer cortes premium, produtos processados e marcas próprias.
A diversificação de destinos também surge como imperativo. Apenas em 2025, o Brasil abriu mais de 200 novos mercados, com quase 20 deles absorvendo carne bovina. Contudo, substituir parte do mercado chinês não será fácil, já que o país asiático compra metade de todas as exportações brasileiras de carne.
Ampliar a presença das empresas brasileiras dentro da China para acompanhar mudanças regulatórias e tecnológicas representa outra estratégia fundamental. A presença do setor privado brasileiro no território chinês ainda está abaixo da importância daquele mercado para o agronegócio nacional.
Novas oportunidades também emergem em setores como combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo, que demandarão maiores quantidades de matérias-primas agrícolas, criando mercados de maior valor agregado para soja e milho.
Sinais de continuidade nas relações comerciais
Apesar das mudanças em curso, os sinais de continuidade superam os de ruptura. A China segue investindo pesadamente em infraestrutura logística no Brasil para garantir abastecimento de alimentos. A COFCO ampliou seu terminal no Porto de Santos, adquiriu locomotivas e vagões, e negocia um memorando para estudar a ferrovia bioceânica conectando o Centro-Oeste ao Pacífico. Esses investimentos de longo prazo indicam compromisso duradouro com o Brasil como fornecedor estratégico.
O comércio agrícola entre os dois países já ultrapassa os 100 bilhões de dólares anuais. O que muda não é a importância do Brasil para a segurança alimentar chinesa, mas sim as exigências quanto à qualidade, agregação de valor e diversificação de produtos oferecidos.



