Notícias Nacionais
Mundo

O parafuso que conquistou o mundo: como os EUA dominaram

O parafuso que conquistou o mundo: como os EUA dominaram
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Um pequeno objeto que mudou a história

A história de como um parafuso de rosca de 60 graus ajudou os Estados Unidos a conquistar o mundo representa um dos exemplos mais fascinantes de como a padronização industrial pode se converter em poder geopolítico. O que parece ser um detalhe técnico insignificante transformou-se em um mecanismo fundamental para expandir a influência americana além de suas fronteiras, sem necessidade de tropas ou colônias tradicionais.

No início da década de 1920, o panorama global era caótico. Cada nação seguia suas próprias regras de fabricação, e dentro dos Estados Unidos, a situação era ainda mais confusa. Diferentes Estados adotavam critérios distintos para praticamente tudo, desde a pavimentação de ruas até a fabricação de componentes industriais. Essa anarquia prejudicava a eficiência produtiva e criava obstáculos significativos ao comércio.

Herbert Hoover e a revolução da padronização

O personagem-chave dessa transformação foi Herbert Hoover, que antes de se tornar presidente dos Estados Unidos serviu como Secretário de Comércio. Hoover era um fervoroso defensor dos sistemas organizados e da eficiência produtiva. Ele acreditava que, mediante uma padronização adequada, toda a economia prosperaria.

Com essa convicção, Hoover iniciou uma ambiciosa campanha para estabelecer padrões em praticamente tudo: paralelepípedos para ruas, lençóis hospitalares, molas de cama, forros de freio, pneus e até taças de vidro. Cada produto passou pelo escrutínio de seu filtro de padronização. Chegou ao ponto de definir quantas horas um copo de vidro com água fervente deveria resistir para ser comercializado (seis horas) e qual percentual de borracha nova um pneu deveria conter (70%).

Essas negociações exigiram longas discussões e frequentes confrontos entre reguladores, fabricantes, políticos e lobistas. No entanto, nenhum desses casos se mostrou tão desafiador e determinante quanto a padronização da rosca do parafuso.

A rosca do parafuso: um detalhe que tudo muda

Padronizar lençóis hospitalares afetava apenas os fabricantes de produtos têxteis. Contudo, padronizar o parafuso afetava absolutamente todos os setores industriais. Um parafuso de 60 graus é aquele cuja rosca é formada por filetes com um ângulo de 60°, diferente de um parafuso de 55 graus por apenas alguns graus—uma diferença imperceptível ao olho nu, porém absolutamente crucial na prática.

A dificuldade residia no fato de que ninguém desejava perder vantagens competitivas e ninguém queria adotar o padrão de outro país. As negociações eram extremamente complexas, pois a rosca do parafuso representava um problema único: sua adoção afetaria todas as cadeias de produção.

Em 1924, após intensas negociações, os Estados Unidos conseguiram o que parecia impossível: estabeleceram o padrão nacional para parafusos com rosca de 60 graus. Hoover declarou, eufórico: "É um sonho realizado! A utopia é nossa." Porém, enquanto Washington comemorava, o resto do mundo continuava falando uma língua completamente diferente quando o assunto era parafusos.

A Segunda Guerra Mundial e a supremacia do padrão americano

A importância crucial desse parafuso de 60 graus revelou-se completamente durante a Segunda Guerra Mundial. Quando o presidente Franklin D. Roosevelt precisou convencer os americanos relutantes a ajudar os Aliados, utilizou a famosa metáfora da mangueira de jardim: se a casa do vizinho estivesse pegando fogo, ele poderia compartilhar sua mangueira para ajudá-lo.

Porém, havia um problema evidente nessa metáfora, conforme observaria o historiador Daniel Immerwahr: e se a mangueira não encaixasse na torneira do vizinho? Esse detalhe aparentemente insignificante, multiplicado por milhões de peças, quase paralisou o esforço de guerra dos Aliados.

Os Estados Unidos se tornaram o grande fornecedor de armamentos, veículos e suprimentos para as forças aliadas. Aviões, tanques, caminhões e armas eram fabricados na América e enviados para o outro lado do Atlântico, onde precisavam ser montados, mantidos e reparados. Tudo dependia de componentes que frequentemente simplesmente não encaixavam porque os parafusos usados não correspondiam aos padrões adotados pelos britânicos e outros aliados.

Durante toda a guerra, os Estados Unidos gastos aproximadamente 600 milhões de dólares enviando parafusos, porcas e pinos extras para o exterior a fim de resolver problemas de incompatibilidade. Com esse montante, teriam sido possível construir cerca de mil aviões bombardeiros B-29.

A negociação que mudou impérios

Essas dificuldades levaram o Reino Unido, que havia adotado um padrão de rosca de 55 graus, a sentar-se para negociar com Washington entre 1943 e 1945. Os registros dessas reuniões, analisados por Immerwahr, revelam uma negociação que simbolizava o ocaso de um império e o surgimento de outro.

Na primeira reunião, os britânicos disseram estar dispostos a discutir. Na segunda, afirmaram que considerariam reequipar suas fábricas. Na terceira, concordaram em fazer a adaptação, porém apenas temporariamente, "para os fins da guerra". Na quarta reunião, simplesmente cederam: adotariam o padrão americano.

"Uma coisa era os Estados Unidos terem declarado sua independência", resumiu Immerwahr, "mas isso era o Reino Unido declarando sua dependência". O país estava admitindo que, no reino dos objetos—um terreno de peso econômico imenso—, seria Washington quem ditaria as regras.

A propagação global dos padrões americanos

Após os Estados Unidos e o Império Britânico adotarem o mesmo ângulo de rosca, o resto do planeta simplesmente seguiu o exemplo. Os padrões provocam um efeito manada: quando a maioria passa a fazer algo de determinada forma, é mais vantajoso aderir rapidamente do que insistir em uma batalha perdida.

Em 1947, delegados de 25 países fundaram a Organização Internacional de Padronização (ISO), uma espécie de "Nações Unidas dos objetos". Gradualmente, o planeta começou a se ajustar ao tom ditado por Washington.

Um exemplo notável é a placa de sinalização de trânsito "PARE". Um policial de Detroit, insatisfeito porque a placa quadrada era confundida com outras sinalizações, cortou seus cantos e criou o formato octogonal. A ideia se popularizou nos Estados Unidos e, em 1953, tornou-se o padrão internacional: um octógono amarelo. Um ano depois, químicos americanos desenvolveram uma tinta vermelha refletiva mais durável, e os engenheiros de trânsito decidiram que o vermelho combinava melhor com os semáforos. Washington mudou de amarelo para vermelho, obrigando novamente o resto do mundo a se adaptar.

Atualmente, os países que adotam a placa octogonal vermelha representam 91% da população mundial, incluindo a Coreia do Norte. Porém, os Estados Unidos se reservam o direito de ignorar os padrões que não são convenientes, como ocorre com o sistema métrico, que praticamente toda nação adotou, exceto Washington.

Um novo tipo de império

Ao término da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos possuíam bases militares e frotas espalhadas pelo mundo, além de uma das poucas economias industrializadas que continuavam funcionando. Poderiam ter seguido o modelo tradicional dos impérios: colônias, governadores e tropas de ocupação. No entanto, escolheram um caminho diferente.

Como aponta Immerwahr, manter um império tradicional exigia esforço constante, com soldados, governadores locais e repressão a revoltas. O novo poder americano funcionaria de forma completamente distinta. Não abdicou da força nem do território—há centenas de bases militares espalhadas globalmente—, mas coisas como a rosca do parafuso não são impostas por meio de uma arma apontada.

Os Estados Unidos construíram uma rede de manufatura, padrões técnicos e cadeias de suprimentos que faziam com que boa parte do mundo dependesse de suas tecnologias, produtos e normas. A força não foi completamente substituída; ela passou a ser complementada por mecanismos muito mais invisíveis e eficazes.

Esse modelo de dominação global através da padronização técnica provou ser extraordinariamente eficiente. Não era necessário hastear bandeiras quando os parafusos já haviam sido firmemente apertados conforme o padrão americano.

Relacionadas

Criptomoedas

Bitcoin (BTC) $63,836 ▲ 0.81%
Ethereum (ETH) $1,868 ▼ 0.33%
BNB $591 ▲ 0.4%
Solana (SOL) $74 ▲ 0.61%

Divisas

EUR/USD1.1535
USD/JPY156.6800