Por que o alerta da Defesa Civil chegou a alguns bairros e não a outros

Como funciona o sistema de alerta da Defesa Civil
O alerta da Defesa Civil chegou a diferentes regiões do Brasil durante a madrugada de sábado, deixando moradores com uma dúvida legítima: por que algumas pessoas receberam a mensagem enquanto outras, mesmo na mesma cidade ou em municípios vizinhos, não foram alertadas? A resposta está no funcionamento específico do sistema utilizado para disparar esse tipo de aviso emergencial. O Defesa Civil Alerta utiliza a tecnologia Cell Broadcast, que permite enviar mensagens de emergência para celulares conectados à rede móvel dentro de uma área determinada. No entanto, esse processo não funciona baseado na localização exata de cada pessoa, como ocorre com aplicativos de mapa.
O papel das antenas de telefonia celular
De acordo com Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, o sistema permite que técnicos da Defesa Civil desenhem áreas no mapa para definir quem deve receber a mensagem. Também é possível selecionar um município inteiro a partir de uma lista pré-configurada. A partir dessa seleção, o alerta é distribuído pelas antenas de telefonia celular que atendem aquela região específica.
O fator determinante para o recebimento do alerta é a localização da antena de telefonia celular, tecnicamente chamada de ERB (Estação Rádio Base), e não a localização exata do aparelho. Isso significa que o celular recebe o aviso porque está conectado a uma antena que foi incluída no disparo. Por esse motivo, uma pessoa que está próxima da divisa entre dois municípios pode receber uma mensagem destinada à cidade vizinha, caso o celular esteja sendo atendido por uma antena localizada naquela área.
Por que bairros de uma mesma cidade recebem coberturas diferentes
A razão pela qual moradores de bairros diferentes de uma mesma cidade podem ter recebido experiências distintas reside na forma como a área é selecionada no sistema. Se a zona escolhida no mapa não abranger todo o município, alguns bairros podem ficar fora do recorte definido para o disparo do alerta da Defesa Civil. Essa lógica também se aplica a regiões metropolitanas: uma cidade pode estar dentro da área acionada enquanto outra, mesmo sendo próxima, pode ficar de fora.
Fatores que impedem o recebimento do alerta
Além da área selecionada e da antena à qual o celular está conectado, outros fatores podem interferir no recebimento da mensagem de alerta da Defesa Civil. Celulares sem sinal no momento do disparo, em modo avião ou conectados apenas ao Wi-Fi podem não receber o alerta. Aparelhos muito antigos, modelos importados sem homologação da Anatel ou telefones incompatíveis com a tecnologia utilizada pelo sistema também podem ficar excluídos.
Há ainda a possibilidade de o próprio usuário ter desativado alertas de emergência nas configurações do aparelho. Em alguns casos, celulares sem suporte a VoLTE (tecnologia usada em redes 4G e 5G para chamadas de voz) ou conectados a antenas sem esse recurso podem deixar de receber a mensagem se estiverem em uma ligação longa no momento do disparo.
A diferença entre a perspectiva do usuário e a perspectiva técnica
Essa variação na entrega do alerta da Defesa Civil pode parecer irregular para o usuário comum. Para quem olha do ponto de vista do bairro, da rua ou do prédio, a pergunta natural é: "por que meu vizinho recebeu e eu não?". Do ponto de vista técnico, porém, a entrega depende da rede móvel e da antena que estava servindo cada aparelho naquele momento específico. As antenas de celular não respeitam necessariamente a divisão administrativa entre bairros e municípios, portanto a cobertura pode ultrapassar fronteiras geográficas estabelecidas.
Diferenças entre cidades vizinhas em regiões metropolitanas
Em regiões metropolitanas, onde municípios ficam localizados próximos uns aos outros, a diferença de alcance pode ser ainda mais perceptível. Um alerta pode ser enviado para uma cidade específica, para uma área desenhada no mapa ou para um conjunto de antenas que atende uma determinada região. Como as antenas de celular não respeitam necessariamente as divisões administrativas, a cobertura pode ultrapassar fronteiras. Uma antena instalada em uma cidade pode atender aparelhos localizados próximos à divisa com outro município. Da mesma forma, uma cidade vizinha pode não receber o aviso se suas antenas não estiverem dentro da área selecionada para o disparo do alerta da Defesa Civil.
Possibilidade de auditoria posterior
O sistema permite auditoria posterior sobre quais antenas receberam a mensagem, em qual data e horário, e distribuíram o alerta para os celulares conectados a elas naquele período. No entanto, existe uma limitação importante: não há recibo individual de entrega em cada aparelho. Ou seja, é possível identificar quais antenas foram acionadas e quais regiões foram alcançadas tecnicamente, mas não necessariamente confirmar, celular por celular, quem de fato viu ou recebeu o aviso.
O incidente de invasão do sistema
No caso específico do alerta indevido enviado durante a madrugada entre sexta-feira e sábado, a Defesa Civil Nacional informou que a plataforma foi tirada do ar após sofrer uma invasão. Segundo o órgão, o disparo foi feito remotamente por alguém de fora do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, tratando-se provavelmente de um ataque hacker. A mensagem foi classificada como "Alerta Extremo" e continha a palavra "misantropia", cujo significado é rejeição à humanidade. O termo não estava ligado a qualquer situação real de risco ou emergência pública.
O alerta enviado entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado assustou moradores de várias cidades porque apareceu em volume alto, como uma sirene, inclusive em celulares que estavam no modo silencioso, e de forma insistente, até que o usuário visualizasse e interrompesse o aviso na tela. A Defesa Civil Nacional informou que a Polícia Federal será acionada e que o sistema só será religado quando as condições de segurança forem restabelecidas.
Características importantes do sistema
É importante ressaltar que o sistema Defesa Civil Alerta não depende de internet, aplicativo ou cadastro prévio para funcionar. O sistema foi criado especificamente para funcionar pela rede móvel, sem exigir que o usuário baixe um aplicativo ou se inscreva em uma base de dados. Essa característica o torna acessível a praticamente todos os usuários de celular, independentemente de terem conhecimento prévio sobre sua existência. A tecnologia Cell Broadcast permite que mensagens de emergência sejam distribuídas de forma eficiente, mas com as limitações técnicas relacionadas à cobertura das antenas e à localização geográfica das redes móveis em cada região do país.

