Propaganda com IA gasta US$ 137 milhões nas eleições dos EUA

A expansão da propaganda com IA nas eleições americanas
A propaganda com IA transformou-se em um fenômeno crescente nas campanhas eleitorais dos Estados Unidos. Com a aproximação das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, a inteligência artificial ganhou espaço sem precedentes na veiculação de anúncios políticos, movimentando cifras extraordinárias que não tinham paralelo em ciclos eleitorais anteriores.
O termo "slopaganda" foi cunhado por pesquisadores para descrever essa prática inovadora que combina propaganda política tradicional com conteúdos de baixa qualidade gerados por inteligência artificial. Essa estratégia vem sendo adotada por ambos os principais partidos políticos americanos, embora com intensidades bastante diferentes.
Investimentos massivos em propaganda com IA
Os números revelam a magnitude do fenômeno. Segundo o Wesleyan Media Project, projeto que acompanha sistematicamente os gastos com propaganda eleitoral nos Estados Unidos, mais de US$ 137 milhões foram investidos na veiculação de anúncios produzidos com inteligência artificial. Esse montante representa um crescimento astronômico em relação aos gastos de 2024, quando apenas US$ 50 mil haviam sido aplicados nesse tipo de publicidade inovadora.
O Wesleyan Media Project identificou 220 anúncios políticos produzidos com IA até o momento do levantamento, mas pesquisadores acreditam que o número real seja significativamente maior. Essa discrepância sugere que muitos anúncios gerados por inteligência artificial circulam sem ser adequadamente rastreados ou documentados.
A predominância republicana no uso da tecnologia
Embora a propaganda com IA seja utilizada por ambos os partidos, existe uma disparidade clara na distribuição dos investimentos. Dos anúncios identificados, quase 81% foram financiados por candidatos republicanos ou grupos ligados ao Partido Republicano. Os democratas foram responsáveis por apenas 12% do total, enquanto os demais tiveram financiamento de candidatos ou organizações independentes.
Um exemplo notório dessa estratégia envolve Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado pelo estado de Michigan. Um anúncio produzido por organização ligada ao senador republicano Ted Cruz do Texas utilizou imagens geradas por inteligência artificial para distorcer a posição do candidato, mostrando-o em cenários comprometedores que nunca ocorreram na realidade.
Falta de transparência nos anúncios
Um dos problemas mais preocupantes relacionados à propaganda com IA nas eleições é a falta generalizada de transparência. Segundo pesquisadores, apenas 27% dos anúncios identificados informam explicitamente que foram produzidos com inteligência artificial, conforme aponta Erika Franklin Fowler, codiretora do Wesleyan Media Project.
Essa falta de divulgação adequada dificulta significativamente a identificação de imagens e vídeos gerados pela tecnologia por parte dos eleitores, impossibilitando uma avaliação apropriada da veracidade do conteúdo. Atualmente, nos Estados Unidos, não existe uma regra federal que obrigue as campanhas eleitorais a informar o uso de inteligência artificial nos anúncios, embora alguns estados já tenham criado regulamentações próprias para limitar essa prática.
Reações de políticos e pesquisadores
A propaganda com IA nas eleições tem gerado reações críticas de diferentes setores. O senador democrata Jon Ossoff, do estado da Geórgia, classificou o crescimento dessa prática como "profundamente preocupante", afirmando que representa "um caminho perigoso rumo à destruição da verdade no debate político".
Ossoff pediu que um anúncio produzido com inteligência artificial fosse retirado de circulação, vídeo que não informava o uso da tecnologia e o mostrava em situações fictícias. O anúncio foi financiado pelo Senate Leadership Fund, organização que apoia candidatos republicanos ao Senado americano.
Rejeição pública à propaganda com IA
As pesquisas de opinião revelam preocupação significativa entre os eleitores americanos. Segundo levantamento realizado para a Fundação AAPC, 73% dos entrevistados consideram o uso de propaganda com IA nas campanhas eleitorais "inaceitável". Esse resultado demonstra que a população percebe os riscos associados a essa tecnologia no contexto político.
A insatisfação pública reflete preocupações legítimas sobre a integridade do processo democrático e a capacidade dos cidadãos em distinguir informação verificada de conteúdo fabricado por algoritmos sofisticados.
Eficácia questionada da propaganda com IA
Apesar do investimento massivo em propaganda com IA, pesquisadores alertam que a quantidade de anúncios produzidos com essa tecnologia não significa necessariamente que sejam capazes de influenciar significativamente o resultado das eleições. Um relatório recente do Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York sugere que a "slopaganda" é "provavelmente mais eficaz na mobilização de eleitores ou na arrecadação de fundos do que na influência na eleição de um candidato".
O documento também ressalta que esses anúncios podem enfrentar dificuldades para atrair a atenção dos eleitores, especialmente diante do excesso de conteúdos produzidos com inteligência artificial. Conforme a população se torna progressivamente saturada com propaganda gerada por IA, a eficácia dessa estratégia pode diminuir consideravelmente.
Perspectivas futuras para regulação
A questão da propaganda com IA nas eleições permanece em aberto. Enquanto alguns estados americanos já implementaram regulamentações específicas, a falta de uma regra federal clara deixa espaço para a continuação dessa prática. A tendência sugere que futuras campanhas eleitorais utilizarão ainda mais intensamente a inteligência artificial, tornando imperativo o desenvolvimento de marcos legais robustos que protejam a integridade do processo democrático sem comprometer a liberdade de expressão política.




