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Robôs humanoides: a disputa tecnológica entre China e EUA

Robôs humanoides: a disputa tecnológica entre China e EUA
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A supremacia chinesa nos robôs humanoides

O mercado de robôs humanoides representa um dos maiores campos de confronto tecnológico entre China e Estados Unidos na atualidade. A fabricante chinesa Unitree Robotics anunciou na segunda-feira (10) a abertura de inscrições para sua oferta pública inicial na Bolsa de Valores de Xangai, operação que pode elevar seu valor de mercado acima de 50 bilhões de yuans (aproximadamente R$ 37,7 bilhões). Esta é a primeira empresa do setor a realizar tal movimento na China, sinalizando a crescente importância dos robôs humanoides na economia do país asiático.

A hegemonia chinesa no segmento é indiscutível. Segundo dados do banco britânico Barclays, o gigante asiático respondeu por 85% dos usos de robôs humanoides em 2025. A empresa de pesquisa tecnológica Omdia confirma que a China possui seis das dez maiores empresas de robótica do mundo. Apenas em 2025, o país comercializou quase 11,6 mil robôs humanoides, enquanto empresas americanas venderam apenas algumas centenas de unidades.

A Unitree Robotics ganhou destaque internacional pela capacidade de produzir robôs sofisticados a preços altamente competitivos, muito inferiores aos seus concorrentes americanos. Este diferencial de custo, combinado com a sofisticação tecnológica, tem impulsionado a liderança chinesa no mercado global e atraído investimentos significativos.

A decisão americana de barrar robôs chineses

Em resposta à hegemonia chinesa, o governo dos Estados Unidos anunciou no fim de julho uma medida drástica: a proibição da entrada no país de novos robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior. A decisão foi justificada pela alegação de "riscos inaceitáveis" à segurança nacional, interpretada por analistas como um reflexo do temor americano de que sua liderança tecnológica seja ameaçada pela capacidade produtiva de Pequim.

A Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos argumenta que estes robôs "coletam dados que poderiam ser explorados por agentes mal-intencionados para vigiar americanos, ampliar as capacidades de serviços de inteligência estrangeiros ou assumir remotamente o controle dos robôs". Anteriormente, em junho, o Pentágono havia incluído a Unitree e outras grandes empresas chinesas de tecnologia em uma lista de companhias acusadas de manter vínculos com as Forças Armadas chinesas, citando inclusive o uso de seus robôs em exercícios militares.

Pesquisadores já demonstraram vulnerabilidades significativas em robôs da Unitree, revelando falhas de segurança que permitem a invasores assumir controle mediante comando de voz e, subsequentemente, utilizar um robô para controlar outros. Washington também expressa preocupação de que uma grande quantidade de robôs chineses de baixo custo possa fornecer dados do mundo real a sistemas chineses de inteligência artificial, que se aproximam rapidamente da capacidade de seus concorrentes americanos.

Preocupações de segurança: realidade ou protecionismo?

As autoridades americanas alertam que robôs humanoides e quadrúpedes chineses podem coletar dados detalhados de localização e informações pessoais, ser controlados remotamente e representar riscos para infraestruturas críticas vitais dos Estados Unidos. As preocupações se concentram principalmente no potencial de duplo uso desta tecnologia, tanto para fins civis quanto militares.

Contudo, é importante notar que a ameaça ainda é em grande medida teórica, visto que a maioria dos robôs humanoides comerciais encontra-se em estágios iniciais de desenvolvimento. A China rejeitou veementemente as acusações, afirmando que os EUA estão utilizando a segurança nacional como pretexto para implementar protecionismo e restringir a tecnologia chinesa. Em resposta, Pequim respondeu com imposição de controles sobre exportações de drones aos EUA e proibição de negócios com seis entidades americanas.

O objetivo estratégico da proibição americana

O governo de Donald Trump nunca ocultou seu objetivo de apoiar a indústria doméstica de robótica dos Estados Unidos, que sustenta a expansão da infraestrutura de inteligência artificial do país, avaliada em quase um trilhão de dólares. Segundo observadores do setor, Trump pretende proteger empresas como Figure AI, Tesla Optimus e Agility Robotics da concorrência de fabricantes chineses em larga escala, cujos robôs frequentemente custam metade do preço, ou menos, dos modelos americanos.

Washington já impôs restrições semelhantes a drones e painéis solares chineses e atualmente aplica uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses. A medida atual é vista como uma tentativa de Trump de ganhar tempo diante da velocidade com que a China expandiu sua produção de robôs. Conforme projeções da Omdia, a China possui seis das dez maiores empresas do setor de robótica, com capacidade produtiva significativamente superior à americana.

Divisão de competências entre os mercados

Estados Unidos e China possuem vantagens comparativas distintas no mercado de robôs humanoides. Os EUA são considerados mais fortes no desenvolvimento do "cérebro" dos robôs, através de inteligência artificial avançada e algoritmos sofisticados. Por outro lado, a China lidera na produção em massa de robôs mais acessíveis, com movimentos aprimorados por atuadores de alto desempenho, componentes que funcionam como "músculos robóticos".

Rush Doshi, do think tank americano Conselho de Relações Exteriores (CFR), descreveu o veto da Casa Branca como "uma das ações mais significativas já tomadas em apoio ao ecossistema de robótica dos EUA". Evan Beard, CEO da fabricante de braços robóticos Standard Bots, afirmou que o governo Trump está enviando uma mensagem "inequívoca" à China, afirmando que "a robótica é uma tecnologia que os Estados Unidos precisam liderar e dominar".

Críticas e consequências potenciais

Críticos argumentam que a proibição pode desacelerar a inovação em inteligência artificial nos EUA, já que pesquisadores frequentemente utilizam robôs chineses de baixo custo para realizar testes e validar teorias. Georg Stieler, consultor da indústria de robótica, observou que "restrições podem reduzir a exposição a riscos de segurança, mas, por si só, não criam um ecossistema doméstico competitivo".

Há também preocupações de que a proibição possa levar Pequim a restringir ainda mais as vendas de terras raras para empresas americanas e o acesso de companhias como Tesla e Nvidia ao mercado chinês, segundo análise de Marc Einstein, diretor de pesquisas da Counterpoint Research.

Perspectivas de mercado para os próximos anos

O banco Barclays estima que o mercado de robôs humanoides, atualmente avaliado entre 2 bilhões e 3 bilhões de dólares (aproximadamente 10,2 bilhões a 15,3 bilhões de reais), poderá chegar a 200 bilhões de dólares (cerca de 1 trilhão de reais) até 2035, no cenário mais otimista, caso haja avanços substanciais no cérebro artificial, força física e tecnologia de baterias.

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, apresenta uma perspectiva ainda mais ambiciosa. Ele aposta que o Optimus, da Tesla, pode se tornar "o maior produto de todos os tempos", com vendas que no longo prazo poderiam atingir 10 trilhões de dólares (aproximadamente 51 trilhões de reais). Em larga escala, Musk acredita que robôs, atualmente vendidos por cerca de 100 mil dólares, poderão custar entre 20 mil e 30 mil dólares por unidade, tornando-se economicamente viáveis para fábricas, armazéns e posteriormente residências.

Combinando as projeções do Barclays com as metas de preço de Musk, o mercado poderia chegar à venda de aproximadamente 7 a 10 milhões de robôs humanoides por ano até 2035. No curto prazo, a expectativa é que humanoides assumam tarefas repetitivas e fisicamente exigentes em armazéns e fábricas. Posteriormente, poderão atuar em setores como saúde, assistência a idosos e trabalhos domésticos, representando uma transformação profunda na economia global.

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