Irmãos Batista saem da Lava Jato e reconquistam poder global

A trajetória de ascensão dos irmãos Batista e a JBS
Os irmãos Batista, Wesley e Joesley, representam uma das histórias mais controversas da economia brasileira contemporânea. Após enfrentarem sérias acusações na Operação Lava Jato, os proprietários da JBS conseguiram se recuperar financeiramente e voltaram a exercer influência política e diplomática em nível global. Ambos, com 54 e 53 anos respectivamente, acumulam fortunas individuais estimadas em US$ 5,7 bilhões, consolidando seu retorno aos holofotes nos últimos anos.
A história da família Batista está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento econômico do Brasil e ao crescimento espetacular da JBS, atualmente a maior produtora de carne do mundo. No entanto, sua trajetória também está marcada por um dos maiores escândalos de corrupção na história brasileira, que quase destruiu seus impérios empresariais.
As origens: do açougue ao império da carne
Tudo começou em 1953, quando José Batista Sobrinho abriu um simples açougue em Anápolis, no interior de Goiás. Na época, o Brasil passava por rápida modernização, e José aproveitou a oportunidade de se mudar para Brasília, que havia sido recém-construída e oferecia isenções fiscais atraentes.
Iniciando com a venda de carne nos canteiros de obras da capital, José expandiu gradualmente suas operações. Alguns anos depois, comprou seu primeiro frigorífico também em Goiás. Em 1972, renomeou a empresa para Friboi e teve dois filhos que nasceriam com apenas dez meses de diferença: Wesley e Joesley. Eles cresceriam em um ambiente propício ao aprendizado empresarial.
Naquele período, o Brasil possuía vastas áreas de pastagem com aproximadamente 105 milhões de cabeças de gado, sendo o quarto maior produtor mundial de carne. Entretanto, a taxa de abate era extremamente baixa: apenas 12% do rebanho anualmente, comparado com 24% na Argentina e 40% nos Estados Unidos. O governo brasileiro decidiu transformar a pecuária em negócio exportador, transferindo a produção para Mato Grosso e financiando a modernização dos frigoríficos.
Wesley e Joesley herdam e expandem o negócio familiar
Wesley e Joesley cresceram no ramo desde a adolescência, aprendendo na prática todas as operações do setor. Ambos abandonaram a escola aos 17 anos para administrar os matadouros familiares. Durante as décadas de 1980 e 1990, seu irmão mais velho, José Junior, liderou a Friboi enquanto o pai se afastava gradualmente dos negócios.
Entre 1993 e 2005, a Friboi adquiriu 12 matadouros e unidades de processamento, crescimento impulsionado pela urbanização brasileira e pela substituição dos pequenos açougues por supermercados que exigiam maiores volumes e controles sanitários mais rigorosos. Em 2004, a empresa transferiu sua sede para São Paulo, e em 2005, quando José Junior entrou para a política, Wesley e Joesley assumiram completamente os negócios com um faturamento aproximado de US$ 2 bilhões.
Transformação em gigante multinacional
A expansão internacional começou em 2005, quando a Friboi comprou a Swift-Armour, maior exportadora de carne argentina, por US$ 200 milhões, com um empréstimo de US$ 80 milhões do BNDES. Dois anos depois adquiriram a Swift & Co., terceira maior processadora de carne dos Estados Unidos, por US$ 1,4 bilhão, evento que marcou o nascimento da maior empresa de carnes do mundo.
Em 2007, a empresa abriu seu capital na Bolsa de Valores brasileira com a melhor estreia até então. A empresa foi renomeada JBS, em homenagem às iniciais do pai José Batista Sobrinho. Na década seguinte, a JBS adquiriu mais de 40 empresas em quatro continentes, expandindo operações e consolidando sua posição global.
Entre 2005 e 2014, a empresa investiu cerca de US$ 20 bilhões em aquisições estratégicas. O BNDES financiou essa expansão massiva, tornando-se em 2014 o maior acionista individual com aproximadamente 35% das ações. A situação gerou questionamentos sobre como um banco público havia se tornado proprietário de um terço de uma multinacional privada que já faturava bilhões.
A Operação Lava Jato e as revelações de corrupção
Em 2016, Wesley e Joesley Batista tornaram-se suspeitos formais em investigações da Operação Lava Jato que revelavam um esquema gigantesco de corrupção envolvendo grandes empresas. Diante do risco eminente de prisão—similar ao que havia ocorrido com Marcelo Odebrecht, condenado a 19 anos—os irmãos Batista fizeram um acordo com o Ministério Público Federal em 2017.
No acordo, confessaram ter subornado funcionários, liberar empéstimos e resolver pendências fiscais. Mais impressionante ainda, admitiram ter subornado três presidentes brasileiros, todos negando as acusações. Aproximadamente US$ 200 milhões foram distribuídos entre quase 1,9 mil políticos ao longo dos anos.
Joesley revelou que o esquema de corrupção com o BNDES iniciou em 2005 com Guido Mantega, então presidente do banco. Para o empréstimo destinado à compra da Swift-Armour na Argentina, alegou ter subornado um associado de Mantega com US$ 3,2 milhões. Entre os subornados estava Michel Temer, presidente do Brasil, que teria recebido US$ 4,6 milhões. Joesley havia gravado uma conversa com Temer em que, segundo a Procuradoria-Geral da República, o presidente aprovava pagamentos para comprar silêncio de líderes políticos encarcerados.
Prisão e reviravoltas inesperadas
O acordo garantiu aos irmãos imunidade contra processos por corrupção, porém a JBS pagou multa recorde de US$ 3,2 bilhões distribuída ao longo de 25 anos. Contudo, dois eventos inesperados abalaram novamente a situação.
Um advogado dos irmãos cometeu erro crítico ao enviar gravações erradas ao Ministério Público Federal. Ao invés de enviar o áudio da conversa com Temer, transmitiu uma conversa entre Joesley e Ricardo Saud, executivo da empresa, na qual Joesley aparentemente admitia ter ocultado informações dos promotores e discutia como influenciar o Procurador-Geral da República.
Dias após esse erro monumental, Wesley e Joesley se entregaram à polícia. O segundo golpe foi financeiro: dias antes do escândalo se tornar público, venderam US$ 90 milhões em ações da JBS. Quando a notícia eclodiu, a bolsa brasileira despencou quase 9%, a maior queda em nove anos. Foram acusados de insider trading e manipulação de mercado, acusações sempre negadas.
A volta por cima financeira e empresarial
Após seis meses em prisão preventiva, receberam autorização para prisão domiciliar noturna e nos fins de semana. As medidas cautelares os proibiam de deixar o país e ocupar cargos na JBS. Quando Joesley foi liberado em março de 2018, as ações da empresa subiram 3,6%.
Em 2019, um aumento massivo de demanda chinesa por carne impulsionou lucros brasileiros em 116%, e os irmãos estrearam na lista Forbes de bilionários com US$ 1,3 bilhão cada. A pandemia de covid-19 trouxe nova reviravolta: a Justiça suspendeu as proibições de ocuparem cargos executivos, argumentando que a JBS era importante demais para ser punida, fornecendo 25% do mercado alimentício brasileiro e empregando 260 mil pessoas.
Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários do Brasil os absolveu das acusações de uso de informação privilegiada. No ano seguinte, retornaram oficialmente ao conselho de administração da JBS, que consolidava sua posição com receita anual superior a US$ 77 bilhões.
A atuação em Wall Street e diplomacia global
O maior desafio restante era a abertura de capital na Bolsa de Valores de Nova York. O órgão regulador americano havia negado repetidamente o pedido da JBS devido à forte oposição bipartidária no Congresso, onde havia se formado o grupo "Ban the Batistas".
A situação mudou com a volta de Donald Trump à Casa Branca em 2025. A abertura de capital ocorreu apenas dois dias após ser revelado que a Pilgrim's Pride, subsidiária da JBS, havia sido o maior doador para o comitê de posse de Trump, contribuindo com US$ 5 milhões—cinco vezes mais do que gigantes tecnológicas como Amazon, Meta e Microsoft.
A estreia em Wall Street foi espetacular: a fortuna de cada irmão aumentou em US$ 200 milhões naquele dia. Atualmente, cada um deles possui riqueza estimada em US$ 5,7 bilhões. O retorno não se limitou ao setor financeiro: os irmãos começaram a circular em altos círculos diplomáticos internacionais.
Joesley encontrou-se com Donald Trump em 2025, pouco após os Estados Unidos imporem tarifa de 50% sobre importações brasileiras. A medida foi eliminada por completo, e um empresário brasileiro atribuiu 99% dessa remoção aos Batista. Joesley também ajudou a aproximar Trump de Lula e desempenhou papel importante em operações americanas envolvendo Venezuela, viajando entre Washington e Caracas.
As questões éticas persistentes
Apesar do sucesso financeiro e da influência política, a JBS enfrentou múltiplas acusações relacionadas a práticas questionáveis. Em 2025, pagou multa de US$ 4 milhões após descoberta de que crianças da América Central trabalhavam à noite limpando fábricas nos Estados Unidos, manuseando produtos químicos perigosos.
Em 2017, investigações revelaram que a JBS comprava carne de fazendas suspeitas de usar mão de obra escravizada. Havia também alegações de maus-tratos animais documentados em 2017 e 2018, com vídeos mostrando violência contra galinhas e leitões. A empresa alegou ter investigado e rompido relações com fornecedores envolvidos.
Acusações de desmatamento também persistiram. Em 2017, pagou multa de US$ 7,7 milhões, e em 2024 foi novamente sancionada por comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia. O Procurador-Geral de Nova York processou a JBS por supostamente não cumprir promessas de atingir emissões líquidas zero até 2040, acusação também rejeitada pela empresa.
Uma lição de realismo financeiro
A história de Wesley e Joesley Batista exemplifica uma verdade incômoda sobre o sistema econômico contemporâneo: quando a fortuna é suficientemente grande, as portas permanecem abertas mesmo após os piores escândalos. Os irmãos revolucionaram a indústria alimentícia brasileira, transformando-a em potência global exportadora de carne.
Alguns os veem como heróis empreendedores que levaram o orgulho brasileiro a Wall Street. No Brasil atual, são frequentemente fotografados ao lado do presidente Lula em eventos públicos. A realidade subjacente, contudo, sugere que poder econômico extremo transcende consequências legais tradicionais, criando uma classe de indivíduos praticamente intocáveis pelo sistema judicial convencional.



