Trump atribui alta do petróleo aos ataques ucranianos

Trump responsabiliza Ucrânia pela escalada dos preços do petróleo
O presidente americano Donald Trump atribuiu os preços do petróleo em alta diretamente aos ataques ucranianos contra refinarias russas, segundo declarações feitas em sua rede social Truth Social nesta segunda-feira (5). A posição de Trump quanto aos preços do petróleo contrasta com análises de mercado que apontam múltiplos fatores como responsáveis pela situação.
Neste momento politicamente sensível, quando faltam menos de trinta dias para as eleições de meio de mandato, Trump buscou desviar a narrativa sobre a pressão nos preços do petróleo e da gasolina que afeta os consumidores americanos. O galão de gasolina ultrapassou a marca de 4 dólares, atingindo o maior valor desde 2022.
Acusações contra democratas e análise do mercado
Além de responsabilizar os ataques ucranianos, Trump também direcionou críticas aos governadores democratas, alegando que o fechamento de refinarias em estados como a Califórnia contribui para manter os preços do petróleo elevados. Em sua mensagem, o presidente afirmou que as refinarias russas estão sendo destruídas pela Ucrânia enquanto as instalações americanas são desativadas por decisões políticas estaduais.
"O que está impulsionando o preço da gasolina não é mais o Estreito de Ormuz, porque números recordes de barris estão sendo exportados quase diariamente, mas sim a palavra 'refinarias'. As refinarias russas estão sendo destruídas pela Ucrânia e as nossas estão sendo fechadas em estados democratas, como a Califórnia, pelos democratas", declarou Trump.
Contexto maior: a guerra entre EUA e Irã
No entanto, especialistas apontam que a situação dos preços do petróleo é bem mais complexa do que sugere a análise presidencial. Os valores elevados iniciaram no começo do ano, quando os Estados Unidos lançaram ataques contra o regime iraniano em coordenação com Israel. Em resposta, Teerã fechou o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais para o transporte de petróleo.
O conflito entre EUA e Irã aumentou significativamente as preocupações com o abastecimento de petróleo, particularmente porque o Oriente Médio concentra alguns dos maiores produtores mundiais. O Estreito de Ormuz é essencial para o transporte de petróleo produzido por nações como Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
Por que as exportações aumentaram mas os preços permanecem altos
Oito meses após o início do conflito e após numerosas tentativas fracassadas de acordo de paz, uma situação paradoxal emergiu no mercado. As exportações de petróleo do Golfo Pérsico começaram a se recuperar e chegaram a 23,3 milhões de barris por dia na última semana de setembro, segundo estimativa do Goldman Sachs, próximo à média esperada.
Apesar dessa recuperação nas exportações, o petróleo Brent, referência internacional, superou novamente os 100 dólares por barril na quinta-feira (1º). Essa contradição entre volumes transportados maiores e preços ainda elevados intriga analistas e investidores.
Gargalo no refino explica a persistência dos preços elevados
A explicação para essa aparente contradição está na estrutura da cadeia produtiva do petróleo. Enquanto o petróleo bruto voltou a circular em volumes próximos aos níveis anteriores ao conflito, os combustíveis já refinados, como diesel, gasolina e querosene de aviação, continuam com exportações significativamente abaixo do normal.
Segundo analistas, o conflito afetou não apenas a produção, mas também as refinarias e aumentou os riscos operacionais para o transporte de derivados. Portanto, pode haver petróleo bruto disponível, mas ainda existe dificuldade para transformá-lo em combustíveis utilizáveis e transportá-lo até os consumidores finais.
Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing, enfatiza a importância de separar essas diferentes etapas da cadeia: "Uma coisa é a produção, outra coisa é o refino, outra coisa é a mobilidade, a exportação, seja por oleodutos ou seja mesmo por navios petroleiros".
Estoques globais reduzidos mantêm pressão nos mercados
A Agência Internacional de Energia (IEA) registrou que os estoques globais de petróleo caíram 507 milhões de barris desde fevereiro. No mesmo período, países-membros liberaram mais de 300 milhões de barris de suas reservas estratégicas de emergência.
Com estoques em níveis reduzidos, empresas e governos tendem a aumentar suas compras para formar ou manter reservas de segurança, mantendo pressão contínua sobre os preços do petróleo no mercado internacional.
Incerteza futura e fatores sazonais
O mercado ainda considera significativo o risco de novas interrupções no abastecimento. Uma escalada adicional do conflito ou ataques a instalações de produção, refinarias e navios petroleiros poderiam reduzir a oferta e elevar novamente os preços de forma abrupta.
A chegada do inverno no Hemisfério Norte também pode pressionar os preços da matéria-prima, já que aumenta o consumo de energia nos Estados Unidos e na Europa. Tanto o consumo de gás natural quanto de derivados de petróleo tendem a crescer durante os meses frios.
Condições necessárias para redução dos preços
De acordo com Maria Carolina Luchesi, analista da Hike Capital, uma queda mais consistente e duradoura dos preços do petróleo dependeria de três fatores principais: recuperação duradoura das exportações, retomada efetiva da produção que permanece interrompida, e normalização completa do mercado de combustíveis refinados.
A Agência de Informação de Energia (EIA) estima que 5,7 milhões de barris por dia de produção fiquem parados em média durante o quarto trimestre, projetando que a maior parte da produção do Oriente Médio volte a níveis próximos aos anteriores ao conflito apenas no segundo trimestre de 2027.
Na sexta-feira (2), o petróleo voltou a ficar momentaneamente abaixo de 100 dólares após relatos de que países podem liberar reservas de diesel e petróleo para aumentar a oferta. Países da União Europeia discutem a liberação de 50 milhões de barris de diesel, enquanto membros da Agência Internacional de Energia poderiam liberar outros 50 milhões de barris.
Impasse entre EUA e Irã continua sem solução
Enquanto isso, Estados Unidos e Irã seguem em impasse após meses de conflito e negociações frustradas. As principais divergências envolvem o programa nuclear iraniano, as sanções econômicas americanas e a questão da livre navegação no Estreito de Ormuz. O Irã exige o fim das sanções e garantias para retomar negociações, enquanto os EUA mantêm exigências de restrições ao programa nuclear e livre navegação na região, perpetuando uma situação que continua afetando os preços globais do petróleo.



