Evangélicos e voto: mapa mostra padrão eleitoral por município

Evangélicos e voto: a correlação revelada pelos dados municipais
A análise cruzada entre dados religiosos do Censo 2022 do IBGE e os resultados das eleições presidenciais de domingo (25) revelou uma correlação significativa entre evangélicos e voto em diferentes regiões do Brasil. O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Lula (PT) no segundo turno com 48,2% dos votos válidos contra 51,8% da reeleição presidencial, apresentou seu melhor desempenho justamente nos municípios onde a presença evangélica é mais expressiva na população.
O mapa interativo que cruza esses dados mostra variações importantes: enquanto o desempenho de Flávio Bolsonaro oscilou de 7,6% a 90,5% dos votos válidos entre os municípios, a proporção de evangélicos variou de 1,2% a 88,7%. Para facilitar a comparação, cada medida foi dividida em três faixas — baixa, média e alta — gerando nove combinações possíveis de análise territorial.
Centro-Oeste: o padrão mais evidente
A região Centro-Oeste apresenta o retrato mais nítido dessa associação entre evangélicos e voto. Ali, 42% dos municípios concentram simultaneamente alta presença evangélica e alta votação no candidato do PL. A mancha roxa característica se estende de Mato Grosso a Goiás, avançando por Rondônia, Tocantins e o sul do Pará, formando um corredor de votação concentrada.
Cidades como Goiânia, Campo Grande e Cuiabá apresentam proporção de evangélicos acima da média nacional e registraram vitória expressiva de Flávio. Em Anápolis, Goiás, onde a presença evangélica é ainda maior, a vantagem do candidato do PL foi ainda mais ampla, reforçando o padrão regional.
Análise por faixas de população evangélica
A proporção de moradores evangélicos está associada à divisão do voto entre Lula e Flávio no segundo turno, mas essa relação varia consideravelmente pelo país quando os municípios são agrupados conforme o percentual de evangélicos. A vantagem de Lula diminui significativamente conforme aumenta a presença evangélica.
Nos 502 municípios em que os evangélicos representam até 10% da população, Lula conquistou 68,5% dos votos válidos, enquanto Flávio obteve 31,5%. Na faixa seguinte, entre 10% e 20% de evangélicos, abrangendo 1.929 municípios, Lula ainda liderou por 61,3% a 38,7%. A diferença diminui na faixa de 20% a 30%, composta por 1.819 municípios, onde Lula aparece com 51,3% e Flávio com 48,7%.
A partir dos 30% de população evangélica, o resultado se inverte completamente. Nos 973 municípios com proporção entre 30% e 40%, Flávio alcançou 54,2% contra 45,8% de Lula. Entre 40% e 50%, o placar foi de 54,6% a 45,4%. Nos 58 municípios em que mais da metade da população é evangélica, Flávio chegou a 55,2%, enquanto Lula ficou com 44,8%.
Variações regionais do padrão
A relação entre evangélicos e voto não se repete com a mesma intensidade em todo o território nacional. O cálculo da correlação entre a proporção municipal de evangélicos e a votação de Lula mostra diferenças substanciais entre os estados brasileiros.
Nordeste: complexidade do voto regional
No Nordeste, em 55% dos municípios, os evangélicos são proporcionalmente poucos e Flávio teve votação baixa. No interior nordestino concentram-se cidades com menos evangélicos e votação expressiva de Lula. Juazeiro do Norte, Ceará, polo de romarias católicas, exemplifica essa dinâmica. Entre as grandes cidades, Salvador e Teresina deram ampla vantagem a Lula. A região consolidou-se como principal reduto do presidente reeleito, liderando já no primeiro turno.
Sul: força eleitoral independente
No Sul, o padrão não se sustenta com a mesma clareza. Aqui a religião praticamente não explica o voto. Montauri, Rio Grande do Sul, é a cidade com menor proporção de evangélicos do país e, ainda assim, concedeu vitória larga a Flávio. O mesmo ocorre em Caxias do Sul e Florianópolis, de maioria católica. No estado sul-rio-grandense fica Arroio do Padre, o município mais evangélico do Brasil, que também votou em peso em Flávio. No Sul, o candidato do PL demonstrou vantagem nos dois extremos de presença evangélica.
Norte: inversão da correlação
No Norte acontece o inverso do padrão geral. Em grandes extensões do Amazonas e do Pará, apesar da presença evangélica ser alta, a votação de Flávio ficou na faixa intermediária ou baixa. Isso significa que nesses estados, municípios com percentuais maiores de evangélicos tendem a registrar percentuais menores de votos em Lula.
Correlação não é causação
É fundamental esclarecer que correlação não demonstra causação. A proporção de pessoas de uma religião em um município não explica sozinha a geografia eleitoral, que resulta de múltiplos fatores que o eleitor considera ao decidir seu voto. O indicador mostra que as duas variáveis se movimentam juntas, sem isolar outros elementos que também diferenciam os municípios.
O mapa nacional reforça claramente que a composição religiosa não explica isoladamente a geografia eleitoral. Há áreas do Centro-Oeste onde percentuais elevados de evangélicos coincidem com votação elevada em Flávio, enquanto partes do Sul registram força eleitoral expressiva de Flávio sem correspondência semelhante entre as duas variáveis.
Pesquisas confirmam o padrão
O mapa reforça o que as pesquisas de intenção de voto já indicavam. No Datafolha realizado em 6 e 7 de outubro, logo após o primeiro turno, Flávio tinha 69% de intenção de voto entre os eleitores evangélicos, contra 25% de Lula. Diferentemente do pai, Jair Bolsonaro (PL), que se declara católico, Flávio foi batizado na fé evangélica, fator que pode ter influenciado sua aproximação com esse eleitorado.



