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Acesso a documentos de Tancredo Neves vira batalha jurídica: 'Vitória da memória'

Acesso a documentos de Tancredo Neves vira batalha jurídica: 'Vitória da memória'
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Documentos sobre a morte do primeiro presidente eleito pós-ditadura viram centro de disputa jurídica

Mais um capítulo importante está sendo escrito na história do acesso a documentos de Tancredo Neves. Depois de 12 anos de tramitação processual, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) reconheceu formalmente o direito da família de ter acesso integral aos registros e procedimentos relacionados aos tratamentos médicos que antecederam o óbito do então presidente eleito do Brasil em 21 de abril de 1985. A decisão, proferida em 26 de outubro, marca um ponto de inflexão em uma batalha judicial complexa que toca em questões fundamentais sobre memória, história nacional e direitos individuais.

Tancredo Neves (1910-1985) seria o primeiro presidente civil que comandaria o país após a ditadura militar, caso tivesse tomado posse. Sua morte sem nunca ter sido empossado deixou em aberto diversas indagações que, durante décadas, alimentaram especulações e teorias alternativas. O reconhecimento do acesso a documentos de Tancredo Neves agora representa uma oportunidade única de esclarecer aspectos ainda nebulosos daquele período tão delicado da história republicana brasileira.

A luta pela quebra do sigilo médico: habeas data após 12 anos

O resultado obtido advém de um pedido de habeas data referente aos prontuários médicos completos do então presidente. A ação judicial, apresentada em fevereiro de 2012, permanecia sem julgamento do mérito até recentemente. O que se buscava era exatamente o acesso a documentos de Tancredo Neves que detalhassem cada etapa de sua internação, desde a data de 14 de março de 1985.

Naquela data, véspera da cerimônia de posse presidencial, Tancredo sentiu-se mal durante um evento religioso em Brasília e foi atendido no Hospital de Base. Inicialmente, diagnosticaram apendicite aguda, mas posteriormente descobriu-se que ele sofria de inflamação na região do intestino grosso. Os registros agora liberados estendem-se até a morte do político, ocorrida mais de um mês depois, no Hospital das Clínicas de São Paulo.

De forma específica, a Justiça quebrou o sigilo médico sobre os prontuários referentes aos atendimentos, procedimentos e cirurgias do político desde aquele 14 de março. Contudo, o aspecto mais relevante pode estar ainda por vir: tornam-se potencialmente acessíveis os entendimentos do Conselho Federal de Medicina, bem como da unidade de Brasília do Conselho Regional de Medicina, acerca do caso.

Interesse histórico e a busca pela verdade: perspectivas da família

De acordo com a advogada que representa a família de Neves, Juliana Porcaro, o interesse em acessar documentos de Tancredo Neves vai além de questões familiares privadas. A questão central reside em compreender quais argumentos a instituição profissional médica utilizou para advertir ou responsabilizar os médicos envolvidos nos procedimentos realizados nos últimos dias do então presidente eleito.

Segundo Porcaro, a decisão judicial não representa simplesmente uma "vitória jurídica" convencional. "É uma vitória da memória, do direito à informação e da busca pela verdade histórica", declarou ela em entrevista. A advogada reforça que a decisão não significa o encerramento de uma história, mas sim a conquista da "possibilidade de conhecer as páginas que ainda faltam" desse capítulo crucial da história nacional.

O filho do político, o advogado Tancredo Augusto Tolentino Neves, figura como autor formal da ação. Contudo, em conversa recente com reportagem, ele revelou perspectiva distinta. O hoje advogado aposentado argumenta que não possui mais interesse em acessar documentos de Tancredo Neves, considerando o assunto encerrado. Para ele, a conclusão já se encontra estabelecida por meio do livro "O Paciente - O Caso Tancredo Neves", escrito pelo médico e pesquisador Luís Mir e publicado em 2010.

Quando a saúde pessoal deixa de ser questão privada

A tese jurídica que embasa o pedido de acesso a documentos de Tancredo Neves defende que, mesmo o sigilo médico, não deve ser um valor absoluto. Conforme argumentado na petição, esse sigilo deve "ceder espaço ao interesse específico do impetrante e sua família, bem como à própria história do pais". O texto ressalta que a nação "reclama por explicações convincentes sobre o inesperado e rápido perecimento do primeiro presidente da República eleito após a ditadura".

Um argumento particularmente forte na fundamentação jurídica é o de que, no caso de um presidente da República, a saúde pessoal deixa de constituir uma questão estritamente privada. Ela passa a repercutir diretamente no "funcionamento das instituições" e nos "interesses da sociedade" como um todo. Esse entendimento dialoga com precedentes internacionais e com a crescente jurisprudência brasileira sobre direitos difusos e interesse público.

A advogada Thais Maia, presidente da Comissão de Saúde, Bioética e Biodireito da seção do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, acredita que o caso trará discussões relevantes para a área jurídica. Para ela, o julgamento envolve três arcabouços fundamentais: o direito constitucional à privacidade, o sigilo médico que protege todos os pacientes, e a recente Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), de 2018, que qualifica tais informações como "sensíveis". "Mas há o entendimento de que não existem direitos absolutos", aponta Maia. "Aí vem o interesse público e histórico em relação à dimensão política de um paciente como este."

O livro de Luís Mir e a reconstrução dos eventos finais

O livro "O Paciente - O Caso Tancredo Neves" tornou-se referência central nas discussões sobre acesso a documentos de Tancredo Neves. Para sua elaboração, o médico e pesquisador Luís Mir obteve acesso a mais de 900 documentos, incluindo prontuários médicos, a fim de reconstituir detalhadamente aqueles derradeiros dias. Sua conclusão foi que a morte ocorreu devido a uma sucessão de erros médicos, culminando com um quadro de septicemia.

Tolentino Neves comenta favoravelmente sobre a pesquisa: "Ele fez um levantamento. E é médico, além de ser escritor. Seu livro é um libelo fantástico". Para o filho de Tancredo, a obra técnica de Mir resolveu as questões que realmente o interessavam: compreender por que o certificado de óbito registra septicemia, quando na verdade ela foi consequência de erros sucessivos cometidos nas sete operações realizadas.

O processo judicial aberto em 2012 foi motivado tanto pela repercussão da obra de Mir quanto pelo seu interesse direto. Tolentino Neves havia conferido ao médico e escritor uma procuração para que ele solicitasse documentos médicos em nome da família. Porém, a negativa surgiu especificamente quando Mir tentou acessar os entendimentos do Conselho de Medicina sobre o caso.

Cronologia do processo: 12 anos de tramitação

Depois de ficar parado entre 2014 e início do ano passado, o gabinete de um desembargador do TRF consultou formalmente as partes sobre o interesse na retomada do processo de acesso a documentos de Tancredo Neves. Em resposta oficial à Justiça, a advogada Porcaro afirmou que desejava prosseguir. "Negar acesso a documentos médicos de um ex-presidente falecido […] é impedir o resgate de fatos que pertencem à história nacional", argumentou na ocasião.

Também de forma oficial, o Conselho Federal de Medicina comunicou não se opor à ocorrência do julgamento. Esse posicionamento abriu o caminho para que o TRF1 proferisse sua decisão em 26 de outubro, reconhecendo o direito de acesso a documentos de Tancredo Neves e ordenando a quebra do sigilo médico.

A morte de Tancredo Neves: contexto histórico e circunstâncias

Tancredo Neves foi eleito em janeiro de 1985, de forma indireta, pelo colégio eleitoral. Representava a esperança da oposição ao regime militar e seria o primeiro presidente civil depois do golpe de 1964. Sua morte sem jamais ter sido empossado constitui um dos eventos mais significativos e controversos da história recente brasileira.

No dia 14 de março de 1985, após participar de um evento religioso em Brasília, Tancredo passou mal com intensas dores abdominais. Foi internado no Hospital de Base do Distrito Federal. Relatos da época indicam que o próprio Tancredo vinha adiando a busca por cuidados médicos, desejando ser empossado antes de se tratar. Ele tinha um tumor no intestino, mas os médicos que o receberam em março confundiram o quadro, inicialmente tratando-o como apendicite aguda.

No dia 15 de março, para acalmar os ânimos políticos do país, o vice-presidente José Sarney recebeu a faixa presidencial e foi empossado no cargo. Tancredo Neves passaria por sete cirurgias e morreria em 21 de abril, jamais tendo sido empossado. Tolentino Neves acredita que, se seu pai não tivesse se tornado presidente eleito, teria sobrevivido aos erros médicos: "Fizeram incisões erradas, deram anestesia por um tubo mais grosso, enfim, foi uma série de erros."

Desdobramentos futuros e interesse histórico

A decisão sobre acesso a documentos de Tancredo Neves abre perspectivas importantes para compreensão de um período fundamental da história nacional. Embora a morte tenha sido ocasionada por sucessão de erros médicos conforme documentado, persiste interesse legítimo em conhecer o que consta nos processos internos do Conselho Federal de Medicina.

A advogada Porcaro ressalta que "depois de tantos anos", resta fundamentalmente "o interesse histórico", já que "não há mais tempo para punir" os envolvidos. Contudo, o interesse persiste porque o episódio ultrapassa significativamente o interesse familiar, envolvendo questões de preservação da memória institucional e esclarecimento de um fragmento crucial da história recente do país.

O reconhecimento do direito de acesso a documentos de Tancredo Neves pela Justiça representa, portanto, não apenas uma vitória jurídica para a família, mas um marco importante para o direito à memória histórica e à transparência institucional no Brasil.

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